70
/ pp 70-80 / Año 13 Nº24 /
JULIO 2026 NOVIEMBRE 2026
/ ISSN 2408-4573 / DOSSIER TEMÁTICO
Tramas cotidianas do cuidado: quando questões existenciais
se tornam questões sensíveis nas/das/com (as) redes
educativas
Tramas cotidianas del cuidado: cuando las cuestiones existenciales se vuelven
cuestiones sensibles en/de/con las redes educativas
Everyday Plots of Care: When Existential Issues Become Sensitive Issues in/of/with
Educational Networks
BONFIM LAGO, Sueli
1
y RANGEL DOS REIS, Leonardo
2
Bonfim Lago, S. y Rangel dos Reis, L.(2026). Tramas cotidianas do cuidado: quando questões existenciais se tornam questões sensíveis
nas/das/com (as) redes educativas. RELAPAE, (24), pp. 70-80.
Resumo
O presente ensaio busca ampliar a conversa em torno das pesquisas e estudos relativos à corporeidade e o cuidado,
buscando problematizar seus desdobramentos nas redes educativas cotidianas. A metodologia utilizada foi a revisão
bibliográfica, já os pressupostos teóricos adotados gravitaram em torno da fenomenologia do corpo em Merleau-Ponty;
e do cuidado de si em Foucault. O termo cuidado é polissêmico e pode remeter a uma multiplicidade de empregos. O
cuidado não se restringe a relações de alteridade ou de individualidade, mas mobiliza uma estética da existência, uma
existência permeada por pertenças e implicada com o ambiente. Afinal, somos corpos expostos e lançados no mundo.
O devir humano é melhor expresso não por uma consciência que representa a realidade, mas pelos encontros de corpos
que afetam e são afetados, enfim, que sentem o mundo e se emaranham nele. Esperamos que a presente investigação
possa orientar outros estudos que investiguem as reverberações entre cuidado e educação, ressaltando as pedagogias
da corporeidade entrelaçadas nos fazeres cotidianos nas/das escolas.
Palavras-chave: Cuidado, educação, corporeidade, cotidianos, afetos, estética da existência, ambiências
Resumen
Este ensayo busca ampliar el diálogo en torno a la investigación y a los estudios relacionados con la corporalidad y el
cuidado, con el fin de problematizar su desarrollo en las redes educativas cotidianas. La metodología empleada fue la
revisión bibliográfica. Los supuestos teóricos adoptados giraron en torno a la fenomenología del cuerpo de Merleau-
Ponty y el cuidado de de Foucault. El término cuidado es polisémico y puede referirse a múltiples significados. El
cuidado no se limita a las relaciones de alteridad o de individualidad, sino que moviliza una estética de la existencia,
una existencia impregnada de pertenencia e implicada con el entorno. Después de todo, somos cuerpos expuestos y
arrojados al mundo. El devenir humano se expresa mejor no a través de una conciencia que representa la realidad, sino
a través de los encuentros de cuerpos que afectan y son afectados, en resumen, cuerpos que sienten el mundo y se
entrelazan con él. Esperamos que esta investigación pueda orientar otros estudios que exploren las repercusiones entre
el cuidado y la educación, destacando las pedagogías de la corporalidad entrelazadas en las prácticas cotidianas dentro
y fuera de las escuelas.
Palabras clave: Cuidado, educación, corporalidad, vida cotidiana, afectos, estética de la existencia, entornos
1
Universidade do Estado da Bahia, Brasil / sbonfimlago@gmail.com / https://orcid.org/0000-0003-1684-8551
2
Instituto Federal da Bahia, Brasil / leonardorangelrreis@gmail.com / https://orcid.org/0000-0002-5644-6250
71
/ pp 70-80 / Año 13 Nº24 /
JULIO 2026 NOVIEMBRE 2026
/ ISSN 2408-4573 / DOSSIER TEMÁTICO
Abstract
This essay aims at expanding the discussions surrounding research and studies related to corporeality and care, seeking
to problematize their implications in everyday educational networks. The methodology used was a bibliographic review,
while the theoretical assumptions adopted revolved around Merleau-Ponty's works on phenomenology of the body and
Foucault's studies over care of the self. The term "care" is polysemic and can refer to a multitude of uses. Care is not
restricted to relations of otherness or individuality, but mobilizes an aesthetics of existence, an existence permeated by
belonging and implicated in the environment. After all, we are bodies exposed and thrown into the world. Human
becoming is best expressed not by a consciousness that represents reality, but by the encounters of bodies that affect
and are affected, that ultimately feel the world and become entangled by it. We expect this research to guide other
studies that investigate the reverberations between care and education, highlighting the pedagogies of corporeality
intertwined in the daily activities of schools.
Keywords: Care, education, body, everyday life, affections, aesthetics of existence, ambiences
72
/ pp 70-80 / Año 13 Nº24 /
JULIO 2026 NOVIEMBRE 2026
/ ISSN 2408-4573 / DOSSIER TEMÁTICO
Introdução
Durante muito tempo o campo da educação foi pensado como um espaço responsável pela criação/consolidação das
identidades e dos papéis sociais, geralmente associadas/limitadas a aspectos profissionais, como o desenvolvimento
das competências e habilidades, inseridas na perspectiva da qualificação profissional. Seguindo este viés, a principal
função da educação seria a de formar indivíduos aptos e eficazes; prepará-los e inseri-los em um mercado de trabalho
e na sociedade. Entretanto, o que pensar desta forma de educar hoje em dia? Será que as lutas pelas identidades ainda
podem ser o principal objetivo da educação? E o que ocorre quando estes movimentos têm que dividir seus espaços
com políticas emergentes? Políticas que não buscam apenas consolidar, solidificar, mas, também, descodificar,
desterritorializar, desconstruir as significações dominantes, questionando os papéis consolidados nas margens estreitas
da cultura oficial. Políticas que não se inscrevem mais apenas nos quadros institucionais clássicos, e, portanto, não se
restringem à esfera pública.
Assistimos nos dias de hoje a uma nova valorização das questões éticas. Este processo faz com que a axiologia do
progresso seja questionada, e, aos poucos, substituída pela axiologia do cuidado. Onde trabalhadoras/es,
colonizadas/os, mulheres, minorias de diversos tipos criaram para si agências distintas da representação imposta pela
epistemologia ditada pelas ciências eurocêntricas e pelos governos colonizadores. Esse é o contexto da chamada
ressurgência do cuidado, cuidado de si e dos outros, uma vez que os princípios e valores éticos dizem respeito aos
procedimentos, estratégias e táticas de formação e transformação dos indivíduos em suas relações consigo mesmo e
com os outros. De acordo com o panorama ontológico do cuidado, a educação em seus aspectos mais realçados tornou-
se muito mais importante, uma vez que em maior ou menor medida, ela encontra-se atrelada a aspectos que dizem
respeito à formação e/ou transformação das pessoas, em um jogo de relações permeadas pela diversidade. Por isso,
ela está sempre implicada com a constituição de políticas de sentidos, logo, com a construção de laços de cooperação
e pertencimento, em um mundo marcado pela fragmentação e desarticulações das instituições sociais.
O termo cuidado possui vários atravessamentos e empregos e pode direcionar para uma prática profissional específica,
como é comum acontecer no campo da enfermagem; também pode se referir a algo difuso que é facilmente encontrado
no dia a dia, como uma placa de sinalização avisando as pessoas para terem atenção ao fazerem algo em determinada
situação ou percurso; e já faz parte do léxico filosófico na escrita de alguns pensadores que colocam essa noção como
um dos princípios éticos e existenciais que é parte imprescindível do devir humano. Collière (1999, p. 15), nesse sentido,
questiona: “Ser cuidado, cuidar de si próprio… cuidar… Quem, ao longo de sua vida, não conheceu cada um desses
imperativos?”. Cuidar, ser cuidado é uma prática comum na história da humanidade. Desde os cuidados maternos,
talvez o primeiro a termos contato
3
, ao cuidado com os outros que nos rodeia, com o ambiente e consigo, a
complexidade dos seus sentidos transita por valores éticos, políticos e científicos, etc.
Ao cuidar uma relação entre autonomia e dependência se forma. um misto de interdependência e liberdade: ser
cuidado e cuidar. O cuidado não se restringe a relações de alteridade ou de individualidade, mas abre um leque de
questões existenciais, presentes no devir humano. O cuidado indica traços de abertura da existência permeada por
pertenças e implicada com o ambiente, com o entorno, apontando que o ser humano só consegue viver e florescer nos
encontros com os outros. Assim, compreender o cuidado a partir da perspectiva da existência incide pensar nos
itinerários do devir humano. A existência é um fazer-se em que os itinerários vão moldando as teias experienciais e as
vivências que constituem o humano. O atrelamento ao princípio ético do cuidado faz com que um ser carente de si, que
sempre necessitará do outro para viver, se atualize a partir da própria experiência de abertura no/do/com (o) mundo.
Se, nas tentativas de entender a existência têm-se necessariamente que compreender o que nos liga ao mundo e como
interagimos com ele, faz-se necessário entender, parafraseando Merleau-Ponty (2007), o estofo do qual somos feitos.
Seguindo as pegadas do filósofo, é na compreensão das condições de nossa existência enquanto corpo, expostos e
postos no mundo, que podemos atinar de qual estofo nós somos feitos. Afinal, o corpo é o elo de ligação que temos
com o mundo. Vivemos e experimentamos o mundo, porque temos um corpo, através dos nossos sentidos, das nossas
percepções (olfativa, cinestésica, gustativa, visual, etc.). Nessa perspectiva, os afetos e imaginários emergem dos
encontros primevos no/do/com (o) mundo. Trata-se de situar a ética através dos arcanos de um corpo próprio que não
3
Historicamente, a imagem da mulher está associada à função de cuidadora. Função pautada na ideia de fertilidade, procriação e amamentação.
Porém, essa divisão social do trabalho sempre variou de sociedade a sociedade. Por exemplo, em algumas sociedades indígenas era o papel das
mulheres gerir os assuntos da guerra. O atrelamento das mulheres aos assuntos exclusivos do cuidado é muito mais destacado nas sociedades
patriarcais e tem forte contorno com o controle vital dos corpos femininos.
73
/ pp 70-80 / Año 13 Nº24 /
JULIO 2026 NOVIEMBRE 2026
/ ISSN 2408-4573 / DOSSIER TEMÁTICO
necessita representar a realidade à uma consciência, mas dos movimentos dos corpos operantes, que sentem e agem
no/o mundo, se emaranham nele.
Por isso, o objetivo precípuo desse trabalho é o de reforçar a conversa em torno das repercussões do estudo da
corporeidade e do cuidado e promover um diálogo com a epistemologia moderna e seus desdobramentos na
contemporaneidade transição nevrálgica da virada ontológica em relação ao corpo , buscando desdobrar o princípio
segundo o qual nos enlaces educativos o cuidar dos sentidos e o sentir o cuidado sempre estiveram juntos, afinal
matéria e mente, nesta perspectiva, são integrados de maneira não dicotômica, e os cuidados são sempre mobilizados
nas redes educativas que nos formam e as quais ajudamos a formar (Alves, 2010a).
Para engrossar o caldo dessa conversa e fomentar os argumentos que entrelaçam educação, cuidado e corporeidade
os pressupostos teóricos adotados gravitam em torno da fenomenologia do corpo em Merleau-Ponty e do cuidado de
si em Foucault (biopoder, biopolítica e as técnicas de si). O presente estudo priorizou em seus aspectos metodológicos
a revisão de literatura, com abordagem qualitativa. O critério de escolha centrou-se na priorização de pensadores que
dialogam com a temática dos cotidianos, a pedagogia da corporeidade, as reverberações da corporeidade e do cuidado
na ciência, na estética da existência e na ética, ressaltando a relação entre o cuidado e o cuidado de si, buscando
problematizar seus desdobramentos nas redes educativas cotidianas. Nesse sentido foi priorizado os estudos de
Merleau-Ponty (1999; 2007), Foucault (1994; 2010) e Nilda Alves (2010). Não foi utilizado o critério de exclusão por
data de publicação. A seleção do material foi definida a partir da temática ora abordada e buscou-se, na literatura,
outros pesquisadores que tivessem afinidades com o tema e que pusessem corroborar com a discussão, no sentido de
subsidiar a argumentação. Assim, seguiu-se os seguintes passos: i) Seleção da bibliografia com aderência ao tema; ii)
Priorização de pensadores que possuem afinidade com o tema; iii) Delimitação da investigação: priorização dos
conceitos chaves ao desenvolvimento do ensaio; iv) Seleção dos tópicos a serem abordados; e, v) Desenvolvimento e
escrita do ensaio a partir dos enlaces, das interações do tema, com os conceitos e as argumentações apresentadas dos
autores selecionados.
Cuidado e movimentos cotidianos: educando nas tramas da Vida
Fazendo uma pequena digressão, podemos começar a prosear um pouco em relação a história do cuidado, com a
mitologia, e nos atermos à “fábula, o mito do cuidado” de origem latina, mas, devedora da tradição grega, analisada
por Boff (1999, p. 46) em seu livro
Saber cuidar: ética do humano compaixão pela terra
:
Certo dia, ao atravessar um rio, Cuidado viu um pedaço de barro. Logo teve uma ideia inspirada. Tomou um
pouco do barro e começou a dar-lhe forma. Enquanto contemplava o que havia feito, apareceu Júpiter. Cuidado
pediu-lhe que soprasse espírito nele. O que Júpiter fez de bom grado. Quando, porém, Cuidado quis dar um
nome à criatura que havia moldado, Júpiter o proibiu. Exigiu que fosse imposto o seu nome. Enquanto Júpiter
e o Cuidado discutiam, surgiu, de repente, a Terra. Quis também ela conferir o seu nome à criatura, pois fora
feita de barro, material do corpo da Terra. Originou-se então uma discussão generalizada. De comum acordo
pediram a Saturno que funcionasse como árbitro. Este tomou a seguinte decisão que pareceu justa: “Você,
Júpiter, deu-lhe o espírito: receberá, pois, de volta este espírito por ocasião da morte dessa criatura. Você,
Terra, deu-lhe o corpo; receberá, portanto, também de volta o seu corpo quando essa criatura morrer. Mas
como você, Cuidado, foi quem, por primeiro, moldou a criatura, ficará sob seus cuidados enquanto ela viver. E
uma vez que entre vocês acalorada discussão acerca do nome, decido eu: esta criatura será chamada
Homem, isto é, feita de húmus, que significa terra fértil”.
Ao lermos a fábula-mito de Higino exposta acima, vemos que “Cuidadotem uma função bem mais estreita com o
destino da criação humana. Ele terá que acompanhar a sua “criatura” não apenas na preparação do seu fim, na morte,
auxiliando Júpiter no trabalho com o espírito, e a Terra na preparação do corpo, exposto na mitologia através da
separação da carne e do espírito,
mas ao longo de todo o seu existir. Então, a partir da exposição da fábula-mito
pode-se inferir que a existência daquele que foi batizado como homem, depende sempre da presença e
acompanhamento do Cuidado.
74
/ pp 70-80 / Año 13 Nº24 /
JULIO 2026 NOVIEMBRE 2026
/ ISSN 2408-4573 / DOSSIER TEMÁTICO
Desse modo, “Cuidado” pode ser compreendido enquanto “fenômeno para a nossa consciência, [que] se mostra em
nossa experiência e molda a nossa prática” (Boff, 1999, p. 89). Ora, é no campo da ação que o “Cuidado” tem sua
maior expressão, porque orienta nossa forma de agir, direciona os meios para que esse agir seja uma prática de
conservação, de reparação da vida. Indicando caminhos, criando técnicas, reciclando práticas, educando, direcionando
hábitos, enfim, criando uma atmosfera de regras e hábitos, e tudo que se fizer necessário, para a realização do seu
objetivo: criar “terra fértil”, manter e preservar sua conservação, tornar a Terra um ambiente fértil, húmus, habitar que
cura.
Se essa interpretação arquetípica de cuidado tiver força e sentido, podemos dizer que “Ser-devir humano e Cuidado”
não podem ser compreendidos separadamente. Só é possível refletir os movimentos cotidianos do humano a partir das
experiências do cuidado e de “como [ele] é vivido e se estrutura em nós mesmos” (Boff, 1999, p. 89). Ainda seguindo
as argumentações do citado autor, não se pode dizer que “temos cuidado”, mas, que “somos cuidado”, o que confere
ao cuidado uma dimensão ontológica, uma vez que ele passa a ser parte fundante da “constituição do ser humano”,
sem ele não se poderia nem mesmo falar de “humano”.
Boff (1999), na mesma obra, analisa a filologia da palavra cuidar (
Sorge
) e alude que a mesma tem o sentido de
cura
,
significado que Heidegger (1988), grande expoente da filosofia fenomenológica e existencial, também adotou. No
dicionário de latim de Ernesto Faria (1962),
cura
é um substantivo feminino que pode significar cuidado, mas também
significa: direção, administração, encargo, incumbência. Sendo assim, em sentidos diversos, o cuidado pode ser
entendido como objeto ou causa de inquietação. Por exemplo: inquietação amorosa e, também, pode ser empregado
com o sentido de amor, ou na acepção do objeto amado. Ainda na língua latina, cuidado pode ser sinônimo de
cogitare-
cogitatus,
usado no mesmo sentido de
cura
, como sinônimo de “cogitar, pensar, colocar atenção, mostrar interesse,
revelar uma atitude de desvelo e de preocupação” (Boff, 1999, p. 91). Essas duas acepções de cuidado – cura e causa
de inquietação podem nos conduzir a pensar acerca das relações que mantemos com os outros e com as coisas.
Cuidar implica relacionar-se, curar alguém, direcionar algo ou alguém, se encarregar de algo ou de alguém, se inquietar
com algo ou com alguém, colocar a atenção em algo ou alguém, e assim por diante.
Por isso, Heidegger (1988), no sexto capítulo de
Ser e Tempo
, intitulado A cura como ser da presença, analisa o
Dasein
(
o ser
) como sendo “originariamente a abertura em que se o ‘estar em jogo’ do ser” (Sá, 2000, p. 260). Para o
autor, é através da presença que se dá a possibilidade de abertura para que o ser humano se torne humano diante dos
outros, sempre no mundo. Portanto, para Heidegger (1988), o ser humano só se torna humano através do cuidado, uma
vez que o Ser já precede a si mesmo por só poder ser ao estar lançado no mundo. Ele se projeta no mundo para poder
Ser e se relaciona com os outros como condição de possibilidade da sua própria existência
4
. Heidegger (1988) cita a
“concepção do cuidado quando fala da interpretação existencial da pre-sença como cura (
sorge
), a partir da própria
interpretação pré-ontológica da pre-sença” (Oliveira; Carraro, 2011, p. 379). Heidegger (1988, p. 257) ainda afirma:
“em sua essência o ser no mundo é cura”, e acrescenta: “cura caracteriza não somente a existencialidade, separada
da facticidade e de-cadência, como também abrange a unidade dessas determinações ontológicas” (
Idem, ibidem
). O
autor frisa que a relação ontológica com o cuidado não se na relação exclusiva do “eu consigo mesmo”, uma vez
que Ser já pressupõe estar lançado na existência. “A nossa inconsistência ontológica nos faz necessitados de um outro”
(Mortari 2018, p.16). Assim, a formação pelo cuidado ou o cuidado com a formação passam necessariamente pela
questão da vitalidade e afecções criadas nos/pelos encontros.
Na medida em que o cuidado é parte fundante da relação com a existência de si e do outro, é na cotidianidade, no dia
a dia, que ele deve ser praticado, ou seja, o cuidado se exerce nos movimentos da vida cotidiana e das redes educativas
(Alves, 2010a). De certa forma, um modo de cuidar que envolve planejamento, participação, acolhimento, direitos
etc., o que mais uma vez o entrelaça com a dimensão da ética. É preciso estarmos atentos/as a isso: é através do
encontro com outro ser que se será cuidado, e, na medida em que se cuida do outro, também se exerce uma espécie
de cuidado consigo mesmo, já que o cuidado pressupõe abertura e relação, como vimos através de Heidegger (1988)
e Alves (2010a; 2010b). Ou seja, é através do cuidado que os outros dispensam a nós que vamos aprendendo, aos
poucos, a desenvolver o autocuidado. Essa questão tem várias implicações. Podemos conjecturar um caso hipotético
4
Aqui é importante notar que a existência própria é marcada pela dependência dos outros (interdependência que notamos nos remete ao
cuidado). Isso significa dizer que nós só podemos ser porque os outros são. Isso também reforça a importância do coletivo em todo processo de
formação/transformação. Nilda Alves (2010b) assinala esse processo ao cunhar o termo redes educativas. Para a autora, “as pesquisas
nos/dos/com os cotidianos que desenvolvo têm permitido indicar que formamos redes educativas múltiplas e que é nelas que nos formamos”
(Alves, 2010b, p. 3).
75
/ pp 70-80 / Año 13 Nº24 /
JULIO 2026 NOVIEMBRE 2026
/ ISSN 2408-4573 / DOSSIER TEMÁTICO
de uma pessoa que vive em estado de vulnerabilidade social e ontológica, que não conseguiu ser cuidada pelo outro.
Essa pessoa consequentemente terá sua relação consigo mesma prejudicada, porque não conseguirá estabelecer uma
relação de autocuidado. Sem os cultivos necessários para “florescer enquanto humana”, essa pessoa terá seu bem-
estar afetado.
Abrimos um pouco mais a discussão em torno dos sentidos atribuídos ao cuidado como administração, direcionamento,
planejamento, sentidos que requerem que se coloque em evidência questões como: “meios para”, “modo como”,
“formas de”. Essas questões podem incidir em uma prática orientada, se transformando em técnicas e habilidades que
pouco a pouco vão se sofisticando. Isso coloca o cuidado em uma encruzilhada ontológica, que o entrelaça em duas
dimensões: (i) por um lado, a preocupação com o outro, uma preocupação com o sentido de humanidade, que “responde
pela convivialidade, pela solidariedade, irmandade, pelo amor, pelo respeito” (Waldow, 2007, p. 8) e pelo afeto; e, por
outro, (ii) o direcionamento das ações para o fim pretendido. Cabe lembrar que os seres humanos vivem em seus
momentos históricos, de modo contextualizado, e, portanto, seus desejos e necessidades mudam. E para atender às
suas demandas, desenvolvem conhecimentos em diversas áreas, tais como: ciência, arte, cultura, economia. Essa
finalidade, esse télos, diz respeito ao caráter objetivo do cuidado, visto como processo de administração da vida
cotidiana.
Essa nuance do cuidado pontua algo muito importante para a educação. Pois, a capacidade reflexiva, segundo a tradição
moderna, assegura ao ser humano o domínio da natureza. Sendo assim, é a partir da capacidade de representar para
si o mundo externo e da capacidade que a consciência tem de julgar o verdadeiro do falso e dos mecanismos racionais
subjetivos para certificar-se disso, que por muitos séculos a percepção sensível foi subjugada em relação à capacidade
racional. Nessa visada, os processos formativos e a criação dos currículos que reforçam a teoria da representação do
conhecimento nos moldes modernos, colocou a educação como um exercício mental. Nesse sentido o esforço da
educação seria desenvolver a capacidade reflexiva e daí a valorização do seu aspecto crítico. O/a educador/a oferece
um arsenal conceitual robusto que possibilita ao educando a capacidade para tal empreitada. Todos os
empreendimentos educacionais decorrentes desse modo específico de educar se concentram na chamada “educação
da cabeça”, mantendo a distinção entre mente e corpo e outros dualismos. O cuidado como princípio ético, como
abertura, inquietação com algo ou alguém, como prestar atenção, nos mobiliza a
sentirfazerpensar
os processos
educativos de maneira mais integrativa e não dicotômica.
Outro ponto a ser destacado é a nossa condição de inacabamento. Nossa existência é sempre um contínuo de
indeterminações, uma existência sempre marcada pelas possibilidades do vir a ser. Abertura com fundo de possíveis,
de atualizações que se efetivam enquanto ações, modos de
sentirfazerpensar
que necessitam de tempo para emergir,
para tornar-se. “Se somente aquilo que é atual é real, então o nosso ser, colocado entre um não-ser-mais e um não-
ser-ainda, sofre de uma inconsistência radical” (Mortari, 2018, p.13). Essa qualidade de propensão a um estilo de
formação que acontece no fazer-se sendo é uma condição inevitável do humano. É importante lembrar que toda
abertura e encontro do humano no/do/com (o) mundo se através das experiências do sujeito encarnado. o
mundo sem corpo e não há corpo sem mundo (Merleau-Ponty, 2007). O corpo é esse ancoradouro no mundo, portanto
as afinidades que estabelecemos com os outros, com as coisas e com o mundo se realizam através das relações
habituais, que criam distâncias, aproximações e direcionamentos, em que os movimentos dos corpos nos atam ao
mundo, então, “meu apartamento não é para mim uma série de imagens fortemente associadas, ele permanece
como domínio familiar em torno de mim se ainda tenho suas distâncias e suas direções ‘nas mãos’ ou ‘nas pernas”
(Merleau-Ponty, 1999, p. 182). O cuidado mobiliza cultivos integrativos que criam pertenças e modos de saber habitar,
é ele quem propicia, habilita e mobiliza os encontros e afecções.
Dessa maneira, enquanto seres inacabados e como “terra fértil”, não somos, mas temos a potência de ser porque
aberturas e possibilidades através dos encontros. Mais uma vez essa condição nos remete a existência corpórea, uma
existência que reconhece que o corpo, “é corpo-próprio, uma força, uma potência, “[...] fundamento da unidade do ser
no mundo, a inflexão ao fundo bruto [...]” (Falabretti, 2012, p. 204). Para que esse ser se atualize na passagem do
ainda não-ser para ser, o corpo, enquanto elo primevo com um mundo, carece de cuidado. O cuidado se torna
necessário a esse sujeito encarnado que sem corpo não tem como estar no mundo, porque mundo e corpo são
interdependentes. O corpo percebe o mundo por uma atitude perceptiva, por uma ação-percepção, por gestos que são
expressos intersubjetivamente, acontece nos entrelaçamentos e relação entre os corpos. “Os outros espíritos se
oferecem a nós encarnados, aderentes a um rosto e um gesto” (Merleau-Ponty, 1984, p. 118).
76
/ pp 70-80 / Año 13 Nº24 /
JULIO 2026 NOVIEMBRE 2026
/ ISSN 2408-4573 / DOSSIER TEMÁTICO
Portanto, o corpo de que trata Merleau-Ponty (1999; 1984) é o corpo que não tem uma alma de natureza distinta, que
não é um “[...] amontoado de carne, músculos, sangue, ossos e pele, uma coisa entre as coisas, uma máquina receptiva
e ativa que pode ser explicada por relações de causa e efeito [...]” (Silva, 2021, p. 132). Ele é um visível/vidente, um
tocante/tocado, sensível/sentinte, enfim, ele é visível e sensível para si mesmo. Ele está atado ao mundo, na medida
em que o há possibilidade de existir sem o mundo e nem o mundo sem ele; “[...] eles estão numa relação de
enlaçamento constituindo-se em duas verticalidades que têm a carne como uma espécie de superfície de contato ou
visibilidade” (Idem, p. 125). O cuidado dentro da perspectiva da corporeidade, não se reduz a cuidados físicos, ou
biofisiológicos, mas desdobra-se a partir do corpo próprio, esse corpo que sente, que cria, que imagina, que pensa, que
tem afetos, que não pode ser pensado em separado de seu ambiente, mas de forma entrelaçada a ele.
Historicamente, na maioria das sociedades antigas, a imagem da mulher está associada à função de cuidadora. Função
pautada na ideia de fertilidade, procriação e amamentação. Afinal, lhe cabiam os cuidados com a alimentação, com a
higiene, com a saúde. Aos homens competiam a caça, a pesca e a defesa dos territórios; eram responsáveis também
pela confecção e pelo uso de instrumentos de guerra, de agricultura, e pela criação dos instrumentos para a reparação
do corpo mutilado pelas guerras e acidentes no trabalho agrícola (Collière, 1999). Para Hirata (2012, p. 284), essa visão
parece ainda ser mantida, quando afirma que embora diga respeito a toda a sociedade, é efetuado principalmente
pelas mulheres; e a análise da divisão sexual do trabalho do "care" tanto no interior da família quanto nas instituições
de cuidados ainda está por ser feita”.
Na Idade Média, com os serviços das irmãs de caridade nos hospitais e dispensários, as práticas de cuidados lhes serão
confiadas e irão se destinar aos mais necessitados. Elas cuidam das crianças, dos doentes e dos velhos, e também
ficam incumbidas da alimentação, da higiene, dos remédios. Daí surge seu conhecimento das ervas, das plantas
curativas (Collière, 1999).
A partir da revolução industrial, se intensificou problemas de natureza sociais com os aglomerados de pessoas vivendo
em condições precárias nos centros urbanos em busca de trabalho. “A expansão mundial da economia burguesa, a
migração dos povos e a dominação cultural europeia que deles sobreveio foram o sustentáculo para o estabelecimento
definitivo do capitalismo industrial, a partir do séc. XIX” (Geovanini; Moreira; Scholar; Machado, 2002, p. 21). Esse
quadro ocasionou problemas sanitários e comprometeu a saúde pública, ameaçando não a vida dos/as
camponeses/as, agora transformados/as em recém operários/as, mas também a vida da classe dominante. “O Estado
passa então a assumir o controle da assistência à saúde como forma de garantir a reprodução do capital, restabelecendo
a capacidade de trabalho do operariado” (Geovanini; Moreira; Scholar; Machado, 2002, p. 22). O cuidado passa então
a ser direcionado para um controle corporal ligado à capacidade de produção. Os corpos interessam à medida que
podem realizar trabalho. A medicina, dentro desse cenário, torna-se uma forma de controle e disciplina, exercendo o
que Foucault (1988) chamou de biopoder, atrelado ao fortalecimento da biopolítica (criada pelos Estados para gerir e
controlar à população).
Observa-se, na sociedade capitalista uma tendência comum a considerar o cuidado com o único fito de cuidado
corporal, criando as condições fisiológicas necessárias que servem para formar a disposição para o trabalho
(biopolítica), fortalecido pela ilusória ideia do cuidado com a saúde (biopoder). Por outro lado, ainda que essa
compreensão do cuidado seja priorizada e idealizada, a efetivação não atende a demanda. Observa-se que em países
em que a pobreza é alta, o cuidado é ainda muito precário, o que incide na emergência de políticas públicas para
diminuição das desigualdades e da proteção social. Ainda que o interesse não seja exclusivamente voltado para as
questões de cunho que envolvem o cuidado humano, essas desigualdades afetam também a economia, uma vez que
precariza os serviços. Segundo dados publicados pelo Relatório do Panorama Social da América Latina e do Caribe
(2024, p. 13): “A estimativa da pobreza está estreitamente vinculada com a renda gerada no mercado de trabalho”. O
relatório supracitado também apresenta dados acerca do percentual de desigualdade de distribuição de renda,
afirmando que “as percepções de injustiça distributiva se mantiveram muito altas na América Latina, em valores
próximos ou superiores a 80%” (CEPAL, 2024, p.13). O relatório ressalta a importância da proteção social não
contribuitiva, como medida de superação da pobreza. “Erradicar a pobreza na infância e na adolescência é um
imperativo de direitos e um tema medular para avançar rumo ao desenvolvimento social inclusivo” (CEPAL, 2024, p.14).
A educação mesmo não sendo exclusivamente uma medida de superação da pobreza, é sem dúvida uma dessas
medidas. E pensar em seus pressupostos é um ponto fundamental na direção dessa superação. Hoje, observa-se que
ela critica os direcionamentos e desdobramentos de uma perspectiva pautada na formação que prioriza a
intelectualidade a criticidade, porém, ainda mantém, mesmo de forma tangenciada, muito desses corolários, uma vez
que, enquanto herdeira da modernidade, resguarda muito de seus conceitos, de seus pressupostos, o que implica que
77
/ pp 70-80 / Año 13 Nº24 /
JULIO 2026 NOVIEMBRE 2026
/ ISSN 2408-4573 / DOSSIER TEMÁTICO
o conhecimento acerca da noção de corpo próprio carece de ser desenvolvido e colocado no campo da ação, e com
isso o princípio do cuidado possa ser
sentidofeitopensado
em sua dimensão ampliada, e exercido na compreensão,
manutenção, preservação e potencialização da vida. Isso implica em se pensar em desigualdades de gênero, em
distribuição de rendas, em medidas protetivas sociais, em oportunidades mais equalizadas, etc., enfim, em todo
panorama complexo que envolve as tessituras do cuidar.
Cuidado e Cuidado de Si
A equalização na perspectiva de uma vida saudável, do bem-estar social, da vida cotidiana e suas complexidades,
incide nas práticas que podem prover a integralidade do cuidado. As discussões acerca do sistema econômico baseado
no acúmulo de capital e as desigualdades daí advindas, constituem empecilhos para a boa prática do cuidado. Em
condições adversas cuidar do outro e/ou de si torna-se um desafio.
Cuidar de si também é responsabilizar-se com uma prática que reflete certa relação de cuidado com o outro. O modo
como os sujeitos se relacionam consigo mesmo, revela o modo como irão se relacionar com os outros (Revel, 2005).
Foucault (2010), investigou acerca das técnicas do governo de si e as técnicas do governo dos outros. O filósofo, a partir
de suas investigações, reconhece que essas técnicas estão relacionadas, dependentes dos aspectos sociais e
direcionadas aos modos específicos de autoformação e autotransformação dos sujeitos, permeadas em meio às
relações de poder. Foucault (1994) procura analisar o que chama “jogos de verdade”, práticas que auxiliam na
constituição da experiência de si, nos acontecimentos da vida. Ele diz que:
meu objetivo, depois de vinte e cinco anos, é esboçar uma história das diferentes maneiras nas quais os
homens, em nossa cultura, elaboram um saber sobre eles mesmos: a economia, a biologia, a psiquiatria, a
medicina e a criminologia. O essencial não é tomar esse saber e nele acreditar piamente, mas analisar essas
pretensas ciências como outros tantos “jogos de verdade”, que são colocadas como técnicas específicas dos
quais os homens se utilizam para compreenderem aquilo que são (Foucault, 1994, p. 2).
A intenção de Foucault é a de especificar o que determina, de algum modo, o saber sobre si e as relações que estes
saberes mantêm com o poder. “Chamo governamentalidade ao encontro entre as técnicas de dominação exercidas
sobre os outros e as técnicas de si” (
Idem, ibidem
). Segundo Grabois (2011), o estudo realizado por Foucault não
pretende conduzir ao entendimento de que essas práticas estão associadas a qualquer posição individualista, ao
contrário, elas estão associadas às práticas que contribuem com os movimentos de resistência a governos que impõem
aos sujeitos seu poder, até mesmo suas formas de Ser, que direcionaram de maneira instrumental o cuidado de si e
dos outros. Foucault (2010) pretende com esse estudo do cuidado de si, das técnicas de si, entender o que desviou, o
que fez com que o cuidado fosse relegado historicamente, o cuidado de si e como consequência, o cuidado do outro.
O filósofo na perspectiva de entender a funcionalidade dos “jogos de poder”, analisou na cultura grega o termo
epimeleia heautou
“que os latinos traduziram, com toda aquela insipidez, é claro, tantas vezes denunciada ou pelo
menos apontada, por algo assim como
cura sui”
(Foucault, 2010, p. 4)
.
Cuidado de si (
epiméleia heautou
) ou preocupar-
se consigo, ou ocupar-se consigo, historicamente, foi uma discussão importante para a antiguidade e, posteriormente,
ignorada, sobretudo na modernidade. O que ganhou mais destaque na história tradicional da filosofia foi a noção de
gnôthi seautón
(conhece-te a ti mesmo), centrada na investigação acerca da relação entre o sujeito e a verdade. O
gnôthi seautón
(conhece-te a ti mesmo), inscrito nas pedras do Templo de Apolo, está associado à figura de Sócrates.
Para o autor, o
gnôthi seautón
(conhece-te a ti mesmo) é mencionado em alguns textos antigos, como subordinado ao
cuidado de si (
epiméleia heautou
). O cuidado de si é visto como “[...] uma das consequências, uma espécie de aplicação
concreta, precisa e particular, da regra geral: é preciso que te ocupes contigo mesmo, [...] que tenhas cuidado contigo
mesmo” (Foucault, 2010, p. 6).
O conceito de
gnôthi seautón
(conhece-te a ti mesmo) enquanto princípio dependente do cuidado de si (
epiméleia
heautou
) é, para Foucault (1994), muito mais um preceito, um conselho técnico, uma advertência em relação à condição
humana que não é a de um Deus mais do que uma “máxima abstrata”. Pode-se dizer que indica a dependência do
sujeito em realizar um esforço ético e formativo para alcançar a plenitude em/da vida, tanto consigo mesmo, como
disposição para saber viver na cidade (
pólis
) em harmonia. Analisando o diálogo do Alcebíades de Platão, Foucault
78
/ pp 70-80 / Año 13 Nº24 /
JULIO 2026 NOVIEMBRE 2026
/ ISSN 2408-4573 / DOSSIER TEMÁTICO
(1994) conclui que conhecer-se a si mesmo, conhecer o seu “eu”, é conhecer sua alma. No entanto, ressalva o autor,
existe um sujeito que age, e para agir, se “serve do corpo”. Então, conclui que a alma que age é a alma-sujeito e não
uma alma-substância. O cuidado de si, no sentido da alma-sujeito, invoca técnicas de cuidado, e esta será bem
direcionada na medida em que se tiver um bom mestre. “Não se pode cuidar de si sem passar pelo mestre, não há
cuidado de si sem a presença de um mestre” (Foucault, 2010, p. 55). E acrescenta: “o mestre é aquele que cuida do
cuidado que o sujeito tem de si [...]” (
Idem, ibidem
).
Dessa maneira, o cuidado de si, ou o cuidado de um modo amplo, é uma atitude pedagógica. Percebemos assim que o
cuidado de si é pedagógico, é apreendido na relação com o outro, dependente, em certa medida, da própria conduta e
do conhecimento (sabedoria) do mestre (que servirá como uma espécie de espelho). O que importa salientar em relação
ao aspecto pedagógico que envolve o cuidado de si é que o sujeito não apreende a melhor forma de agir
aprioristicamente, não se trata de um sujeito em busca do universal, do essencial, mas da formação do sujeito que se
põe no mundo e age, tendo formada sua subjetividade nos jogos de poder e verdade (Portocarrero, 2011).
Por isso, o filósofo afirma que houve um desvio da prática do cuidado de si, com a filosofia cristã, e em seguida, na
modernidade, quando a
epiméleia heautou
(cuidado)
cedeu lugar ao
gnôthi seautón
(epistemologia), e com isso houve
certo esquecimento ou modificação na relação das práticas do cuidado. O que criou uma brusca modificação nos modos
de educar, porque este passou a ser regido pelo primado do conhecimento e não mais do cuidado. Foucault (2010)
destacou esse esquecimento na modernidade e nomeou-o de “momento cartesiano” – não que tenha sido Descartes o
responsável direto por esse deslocamento, mas a difusão e o desdobramento de sua filosofia resultaram nesse
esquecimento. Na verdade, pode-se dizer que houve uma marginalização da questão do cuidado de si. A partir do
século XVII, a busca da verdade, não mais como uma busca filosófica e espiritual, reside, agora, exclusivamente na
compreensão do conhecimento, de sua condição e alcance. O sujeito terá acesso à verdade, mas não pode mais afirmar
que esse acesso lhe garante a autotransformação e, desse modo, a salvação. Na estrutura de poder da modernidade,
individualização e totalidade estão operando simultaneamente (Portocarrero, 2011), e o poder é exercido de forma mais
sútil, assentado na crença de que o conhecimento nos “ilumina”, e, portanto, nos autoriza a objetividades e certezas.
Essa cosmovisão irá favorecer o surgimento de campos de saber específicos que difundem práticas disciplinares tão
violentas que se institucionalizam mediante o “status” de “científicas”, portanto, práticas que se constituem como
epistemologicamente verdadeiras, infringindo sobre as subjetividades “jogos de poder e verdade”, incidindo sobre os
corpos domínio e controle (disciplina e biopoder).
É importante frisar que é o corpo, agora esquadrinhado por conhecimentos científicos, que será alvo de sanções. “O
corpo do indivíduo aparece como provido de condições de funcionamento próprias de um organismo, que fazem com
que o poder disciplinar se dirija a uma individualidade analítica, celular, individual, natural, a partir dos corpos que
controla” (Portocarrero, 2011, p. 75). Foucault (1994) observa que a renúncia do indivíduo a si mesmo é uma questão
importante, e no período cristão, duas técnicas se impõem: a do teatro e da verbalização de si, sendo esta última mais
difundida e presente até hoje. “A partir do século XVIII e até a época atual, as ciências humanas” reinseriram as técnicas
de verbalização em um contexto diferente, fazendo delas não o instrumento de renúncia do sujeito a si mesmo, mas o
instrumento positivo da constituição de um novo sujeito” (Foucault, 1994, p. 21).
Essa positividade, referida acima, lega para a contemporaneidade discursos e práticas, que longe de pensar no “cuidado
de si”, como prática de autoconhecimento e transformação de um sujeito-ação, conduzem a uma normatividade que
camufla os sentidos do cuidado. E questões do âmbito do cuidado antes valorizadas tornam-se problemáticas, tais
como: o que se pode fazer? O que se deve fazer? No período clássico, elas estavam atreladas a uma estética da vida,
em que o sujeito se constituía através das relações forjadas por elas em suas comunidades. Relações na ordem do
pessoal e do social: sujeito-ação nas reverberações com os espaços políticos e institucionais, que incidem nos
“deveres” e nos “direitos” que, no mínimo, precisam estar de acordo com os valores consensualmente aceitáveis,
possíveis e necessários. O resgate do cuidado em Foucault (1994; 2010) mostra que essa concepção moderna, que
direcionou a questão do “si”, subordinando-o ao conhecimento de si, à consciência de si, forjada em pseudovalores de
objetividade, ainda se mantém na contemporaneidade. Essas conversas nos envolvem e nos convidam a repensar como
as práticas de cuidado de si e cuidado do outro, estão implicadas com a compreensão de si, enquanto sujeito exposto
e posto que percebe e interage no/do/com (o) mundo através dos encontros dos corpos (e não de uma racionalidade
constituinte), nos movimentos cotidianos.
79
/ pp 70-80 / Año 13 Nº24 /
JULIO 2026 NOVIEMBRE 2026
/ ISSN 2408-4573 / DOSSIER TEMÁTICO
Sem Pretensões Conclusivas…
A conversa em torno dos valores e direcionamentos propostos pela educação estão imbricados com a visão de mundo
a eles associados. Os modelos hegemônicos que dominam e regulam os modos de ser dos sujeitos lhes apresentam
realidades pseudoconstruídas que tem o único fito de controle e poder. A existência, enquanto campo aberto de um
tornar-se, e estabelecida na interdependência que os sujeitos mantêm entre si e, portanto, pedagógica, impõe que essa
interdependência perpassa pelo cuidado, tanto o de si como o do outro.
Na medida em que essas relações da vida em seu fazer-se diário com seus envolvimentos múltiplos:
ambiente/corpo/mundo está tecida sob um fundo de indeterminações que carece de preservação e de manutenção. E
nesse enlace de
versentirpensar’
o mundo a partir da noção de corporeidade e cuidado que os itinerários cotidianos
são forjados, misturados e sentidos em seus aspectos mais amplos e realçados.
Referencias bibliográficas
Alves, N. (2010a). Redes educativas "dentrofora" das escolas, exemplificadas pela formação de professores. En Â.
Dalben et al. (Orgs.),
Convergências e tensões no campo da formação e do trabalho docente
(pp. 4966). Autêntica.
Boff, L. (1999).
Saber cuidar: Ética do humano compaixão pela terra
. Vozes.
Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL). (2024).
Panorama social da América Latina e do Caribe
.
Nações Unidas.
Collière, M.-F. (1999).
Promover a vida: Da prática das mulheres de virtude aos cuidados de enfermagem
. Lidel.
Falabretti, E. (2012). A pintura como paradigma da percepção.
Dois Pontos, 9
(1), 201226.
Faria, E. (Org.). (1962).
Dicionário escolar latino-português
. Ministério da Educação e Cultura.
Foucault, M. (1994).
Dits et écrits
. Gallimard.
Foucault, M. (1988).
História da sexualidade I: A vontade de saber
. Graal.
Foucault, M. (2010).
A hermenêutica do sujeito
. Martins Fontes.
Geovanini, T., Moreira, A., Dornelles, S., & Machado, W. C. A. (2002).
História da enfermagem: Versões e interpretações
.
Revinter.
Grabois, P. F. (2011). Sobre a articulação entre cuidado de si e cuidado dos outros no último Foucault: Um recuo histórico
à Antiguidade.
Ensaios Filosóficos, 3
.
Hirata, H. S. (2012). O desenvolvimento das políticas de cuidados em uma perspectiva comparada: França, Brasil e
Japão.
Revista de Políticas Públicas
, número especial, 283290.
Merleau-Ponty, M. (1984).
O olho e o espírito
. Abril Cultural.
Merleau-Ponty, M. (1999).
Fenomenologia da percepção
. Martins Fontes.
Merleau-Ponty, M. (2007).
O visível e o invisível
. Perspectiva.
Mortari, L. (2018).
Filosofia do cuidado
. Paulus.
Oliveira, M. F. V., & Carraro, T. E. (2011). Cuidado em Heidegger: Uma possibilidade ontológica para a enfermagem.
Revista Brasileira de Enfermagem, 64
(2), 376380.
Portocarrero, V. (2011). Governo de si, cuidado de si.
Currículo sem Fronteiras, 11
(1), 7285.
80
/ pp 70-80 / Año 13 Nº24 /
JULIO 2026 NOVIEMBRE 2026
/ ISSN 2408-4573 / DOSSIER TEMÁTICO
Revel, J. (2005).
Michel Foucault: Conceitos essenciais
(M. do R. Gregolin, N. Milanez, & C. Piovesani, Trads.). Claraluz.
Sá, R. N. (2000). A noção heideggeriana de cuidado (Sorge) e a clínica psicoterápica.
Veritas, 45
(2), 259266.
Silva, C. A. F. (2012). O retorno ao mundo da vida: Merleau-Ponty, leitor de Husserl.
Revista Filosófica de Coimbra
, 11
32.
Waldow, V. R. (2007).
Cuidar: Expressão humanizadora da enfermagem
. Vozes.
Fecha de recepción: 29-9-2025
Fecha de aceptación: 1-6-2026