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/ pp 43-54 / Año 13 Nº24 /
JULIO 2026 – NOVIEMBRE 2026
/ ISSN 2408-4573 / DOSSIER TEMÁTICO
Crenças políticas e a potência dos cotidianos
Os/as ‘
praticantespensantes’
dos movimentos sociais têm levantado questionamentos acerca da relevância atual dos
movimentos docentes, em especial, dos movimentos grevistas, da eficácia das lutas sociais e de categorias organizadas
e, em especial, do papel das lideranças sindicais, sua capacidade de negociação e, inclusive, sua capacidade de escuta
em relação às demandas de suas bases. Da mesma forma, as táticas utilizadas pelas unidades sindicais não parecem
atingir a população com quem os movimentos desejam dialogar e, por conseguinte, sensibilizar. Não é o objetivo desse
texto responder ou solucionar tais questões, mas dialogar acerca de como os movimentos sociais, a exemplo da luta
sindical, podem afetar os cotidianos dos/as próprios/as envolvidos/as.
Para iniciar esta discussão, vale dialogar com algumas ideias acerca dos movimentos sociais. Gohn (2011, p.335)
descreve esses movimentos como “ações sociais coletivas de caráter sociopolítico e cultural que viabilizam formas
distintas de a população se organizar e expressar suas demandas (cf. Gohn, 2008)”. Castells (2013, p.157), por sua
vez, indica que: ao longo da história, os movimentos sociais foram e continuam a ser as alavancas da mudança social.
No diálogo com os/as autores mencionados, é preciso considerar que qualquer movimento social parte das inquietações
de um grupo que possui alguma identificação entre seus membros, por mais específica ou genérica que esta possa ser.
Parte, também, da ideia de que tais inquietações não serão sanadas por aqueles/as que estão nos cargos de poder,
ainda que sejam eleitos/as e, portanto, representantes da sociedade.
O “fracasso” de um movimento grevista, a exemplo do movimento dos/as profissionais de educação da Cidade do Rio
de Janeiro, que regressaram às salas de aula com o Projeto de Lei Complementar aprovado, com o aumento de carga
de trabalho, sem compensação salarial e sem conseguir negociar a reposição das aulas, leva ao questionamento de
como fortalecer as bases da luta trabalhista. Essa é uma questão complexa para a qual talvez não haja uma resposta
já articulada.
Nesse contexto de incertezas e crescente descrença, vale a pena conversar mais uma vez com Certeau (2012). O autor
nos apresenta a ideia de crença não como o objeto do crer (um dogma, um programa etc.), mas o investimento das
pessoas em uma proposição, o
ato
de enunciá-la considerando-a verdadeira – noutros termos, uma ‘modalidade’ da
afirmação e não o seu conteúdo. (p. 252)
A defesa de Certeau (2012) de que crer está menos relacionado ao conteúdo que a uma disposição para engajar-se na
defesa de uma ideia, um valor, uma crença nos ajuda a compreender a crise de crença nas lutas coletivas e nas esferas
de organização social que observamos e vivemos atualmente. O próprio autor nos ensina que, ao longo da História,
essa crença foi sendo transportada e colocada em instituições diversas: igrejas e suas religiões, governos, educação,
ciência, bancos, sindicatos etc. Ou seja, é possível que a crença não esteja perdida, mas deslocada, transportada para
outra esfera.
O fato de hoje haver uma dificuldade em engajar novamente os
‘praticantespensantes
’ nos movimentos sociais, em
especial na luta sindical, pode se dar porque esses mesmos
‘praticantespensantes
’ foram tomados por uma descrença
relacionada a múltiplos fatores. Há uma descrença latente nessa forma de luta, seja pelas perdas vividas recentemente,
seja pela dificuldade de reconhecer as lideranças como verdadeiramente envolvidas no processo, ou, ainda, pela
descrença nos políticos, que não cumprem acordos firmados, ou mesmo uma descrença no Poder Judiciário, que não
parece, muitas vezes, considerar as demandas das categorias quando os impasses são judicializados.
Porém, se há descrença na luta sindical, onde estaria depositada agora a crença que alimenta a esperança em melhores
condições de trabalho e em uma vida considerada melhor? Essa crença não parece estar exatamente na luta política,
mas em outras dimensões da vida cotidiana. Por exemplo, há quem deposite suas crenças nos espaços religiosos (e
em uma recompensa futura para os sacrifícios dessa vida) ou, ainda, nas promessas do chamado empreendedorismo
(que também promete sucesso pessoal fora da lógica de organização dos trabalhadores), outra faceta da lógica
neoliberal.
O avanço das políticas neoliberais e a precarização cada vez maior das condições de trabalho nos esgotam ao ponto de
já não mais vislumbrarmos saídas pela luta coletiva. Cada vez mais os processos de mudança estão associados a
processos individualizados e à crença de que o sucesso está relacionado à organização pessoal e individual dos sujeitos.
A precarização do trabalho leva a uma falta de tempo, inclusive, para as trocas coletivas e a um desânimo frente a
punições que se possa sofrer a curto prazo (descontos por greves, processos administrativos etc.)