
Paterson, “Canção e sonoridade…” Nueva Revista de Literaturas Populares
Número 5 / Noviembre 2026 / pp. 65-86 80 ISSN 3008-7619
É possível que o acompanhamento apareça, assim, “pendurado no canto” e,
de certa forma, condicionado (ou respondendo) a ele.
O mesmo nos parece ocorrer em relação ao canto de Áurea Martins em
Até sangrar, especialmente na passagem que vínhamos analisando. Quando
escutamos os medleys, podemos notar que a voz do canto se deixa acompanhar
pelo arranjo –o qual dá a direção melódica, harmônica e rítmica–, sem, no
entanto, deixar de estabelecer, por sua vez, uma determinação que é da voz
do canto sobre o acompanhamento instrumental. A presente cena musical
nos permite localizar, portanto, a via de mão dupla em que voz e instrumento
musical se dirigem um ao outro, quando o canto é, ao mesmo tempo,
conduzido e condutor, isto é, fonte do movimento.
No texto “Lupicínio esquecido?”, Augusto de Campos (2003) observa
que Lupicínio Rodrigues, o compositor, “anticantor”, cantando sua própria
música, antecipou as transformações radicais por que passaria a voz do canto
no contexto da música popular brasileira pouco tempo depois. Os textos de
suas composições exploram o que o poeta e ensaísta chamou de “uso
explosivo do óbvio,9 da vulgaridade e do lugar-comum” (Campos, 2003:
222), como por exemplo no verso que cita, extraído de um dos sambas-
canções mais conhecidos de Lupi: “A vergonha é a herança maior que meu
pai me deixou”.10 Ao contrário de outros compositores seus
contemporâneos, que buscavam o rebuscado, prossegue Campos, “Lupicínio
ataca de mãos nuas, com todos os clichês da nossa língua, e chega ao insólito
pelo repelido, à informação nova pela redundância, deslocada do seu
contexto” (Campos, 2003: 222). Desta forma, através de repertório
aparentemente frágil, o compositor se dedica a virar pelo avesso a “dor de
cotovelo” amorosa, o que aparece em sua composição, entre melodia e letra,
mas também em sua forma de interpretar suas próprias canções, cantando.
Como destaca Rosa Dias, trata-se de, nas palavras de Lupicínio: “saber
sentir com a garganta seca, mãos trêmulas, olhos úmidos, a sua, a nossa, a
vossa, a universal dor de cotovelo” (2009: 12). E ele o faz dando lugar a um
apaixonado boêmio, sujeito cancional que aparece ora ressentido, ora
culpado e, com isso, “dá voz a certa marginalidade, terna e sentimental”
(Dias, 2009: 19), descrevendo sentimentos na forma de notas musicais.
9 O que o poeta irá aproximar do “óbvio ululante” de Nelson Rodrigues (Campos, 2003: 221-222).
10 Referência à canção “Vingança” (1952), que parece conter traços autobiográficos e fez sucesso na voz
da cantora Linda Batista.