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/ pp 133-146 / Año 13 Nº24 /
JULIO 2026 – NOVIEMBRE 2026
/ ISSN 2408-4573 / DOSSIER TEMÁTICO
O que torna possível uma educação? O que torna possível uma infância?
A possibilidade do encontro com as crianças,
com uma infância, um encontro que incomoda e gera desconforto no que está dado, um encontro que inquieta, que
cria polêmicas e desacordo. Um encontro que nos tira da zona de conforto e abre brechas, fissuras para experiência
com as crianças. Então, nosso convite é encontrar a criança dentro de nós, essa criança que nos ajuda a pensar
com
as crianças. Pensar com as crianças nos abre para a possibilidade da experiência que acontece no encontro
entre
,
como nos traz Kohan (2007, p. 98),
Quem sabe, tal encontro entre uma criança e uma professora ou entre uma criança e outra
criança ou, ainda, entre uma professora e outra professora possa abrir a escola ao que ela
ainda não é, permita pensar naquilo que, a princípio, não se pode ou não se deve pensar
na escola, e fazer dela espaço de experiências, acontecimentos inesperados e
imprevisíveis, mundo do devir e não apenas da história; tempo
aión
, e não somente de
chrónos
.
Imagens-narrativas do encontro com as crianças
Então, de qual infância estamos falando no encontro com as crianças? Primeiro, é preciso desconstruir a imagem de
infância associada à primeira idade, a estágios ou fases de desenvolvimento e à etapa de vida. Infância vem do latim
“
in-fans”,
que significa ausência da fala. Assim, diante desse termo significado, podemos construir uma imagem de
infância associada a incapazes, deficientes, não habilitados, acreditando que aquele que não fala é excluído
socialmente, já que infância é a ausência da linguagem. Pensando assim, esquece-se de que a capacidade de falar
passa pela infância, e só as crianças, e não os adultos, aprendem a linguagem. A infância, assim, pode ser pensada
como condição e experiência.
Infantes são todos sem voz, os que não nascem falando, aqueles que estão aprendendo a
falar e a ser falados. Mais uma vez, não devemos entender a infância apenas como uma
idade cronológica. Infante é todo aquele que não fala tudo, não pensa tudo, não sabe tudo.
Aquele que, como Heráclito, Sócrates, Rancière, Deleuze, não pensa o que todo mundo
pensa, não sabe o que todo mundo sabe, não fala o que todo mundo fala. Aquele que não
pensa o que já foi pensado, o que ‘há que pensar’. É aquele que pensa de novo e faz pensar
de novo. Cada vez pela primeira vez. O mundo não é o que pensamos. ‘Nossa’ história está
inacabada. A experiência está aberta. Nessa mesma medida somos seres de linguagem, de
história, de experiência. E de infância (Kohan, 2007, p. 246-247).
Infância, para Kohan (2007), é condição da experiência. Experiência e infância não antecedem a linguagem, mas são
suas condições originárias, que fundam. Sem a experiência da infância somos repetição do mesmo, lei invariante,
normalidade imodificável. Com a infância podemos ser uma historicidade que se interroga e reconhece.
A possibilidade de interrogar-se e reconhecer-se na escrita passa pela infância. Uma tarefa importante no momento da
escrita deste texto, foi “[...] recuperar a infância no ato de escrever, e isso significou afirmar a experiência, a novidade,
a diferença, o não determinado, o não previsto e imprevisível, o impensado e o impensável na escrita” (Kohan, 2007,
p. 87). Ir ao encontro da infância em si, ir ao encontro da infância no mundo, isso significa inventar o mundo e encontrar
o que o mundo tem de novo, a novidade do encontro,
No encontro que se constituiu uma professora-pesquisadora, no encontro com uma infância, na experiência com as
crianças, no movimento do vento que inventa, cria, brinca sem rumo certo, sem direção ou duração preestabelecidas.
O vento nos ajuda a entrar em devir, o devir criança, o devir professora, o devir pesquisadora. Na história “Cabeça de
vento” (Bedran, 2003), o devir-vento se coloca. Não é o vento e o menino, mas a experiência entre os dois, o que se
passa na relação “entre”. O menino adora o vento. Ser cabeça de vento para ele é um elogio: “O vento faz rodar o
moinho de sal, seca as roupas do varal, e eu sinto aqui o meu coração que o vento traz com ele alguma surpresa, algum
mistério, alguma mudança. É isso mesmo! Vento é movimento!” (p. 24).
A infância como vento... A escrita como vento está entre: entre a calmaria e o furacão. O vento nunca para de estar em
movimento, ou seja, ele é o próprio movimento, ora mais lento, ora mais forte, às vezes avassalador e outras vezes
apenas uma brisa. O vento não se deixa aprisionar; escapa o tempo todo, não se fixa em um território, por isso é
desterritorialização. O vento faz delirar e, como delírio, ele sai do eixo, escapa ao controle.