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/ ISSN 2408-4573 / DOSSIER TEMÁTICO
Democracia como exercício ético-político nos cotidianos
escolares: considerações investigativas em um grupo de
pesquisa numa universidade comunitária
La democracia como ejercicio ético-político en la vida escolar cotidiana: consideraciones
investigativas en un grupo de investigación de una universidad comunitaria
Democracy as an Ethical-Political Exercise in Everyday School Life: Investigative
Considerations in a Research Group at a Community University
BARCHI, Rodrigo
1
, VÍGARI, Michele Padilla Pedroso
2
, CALDEIRA, Uratã Alves
3
, COSTA, Davi
Fernades
4
y BASTIDA, Erica Monteiro Nunes
5
Barchi, R., Vígari, M. P. P., Caldeira, U. A., Costa, D.F. y Bastida, E. M. N. (2026). Democracia como exercício ético-político nos cotidianos
escolares: considerações investigativas em um grupo de pesquisa numa universidade comunitária. RELAPAE, (24), pp. 30-42.
Resumo
O presente artigo busca apresentar o trabalho realizado por um grupo de pesquisas de um programa de pós-graduação
em educação, de uma universidade comunitária sediada em uma cidade do interior do Estado de São Paulo, no Brasil,
cujos projetos entrelaçam as temáticas da democracia, da educação ambiental e dos estudos nos cotidianos escolares.
O grupo, instituído pouco menos de três anos, tem como intenção compreender as manifestações e sentidos da
democracia nos cotidianos escolares, entendendo-a tanto na perspectiva de regime de governo e gestão escolar, ora
representativo, ora participativo, quanto como exercício ético e político na vida diária das escolas, na participação direta
incessante, em colaboração ou resistência às práticas gestoras. Neste sentido este texto é dividido em três partes, além
da introdução e das considerações finais. Na primeira, trazemos o processo de instauração do grupo, tributário
conceitual e metodologicamente de equipes investigativas anteriores no mesmo programa, e as perspectivas e estudos
dos cotidianos escolares nas quais os trabalhos são debatidos e construídos. A seção seguinte apresenta as bases
teóricas e conceituais no âmbito da democracia, especialmente na dimensão radical, no pensamento de pensadores/as
contrários à separação entre Estado e sociedade civil, na qual as pesquisas sobre o tema estão sendo potencializadas
nas micropolíticas dos cotidianos escolares. Na última parte, trazemos o entrelaçamento e a contextualização de quatro
pesquisas de doutorado, e sua vinculação ao projeto de pesquisa do grupo, de modo que, a partir de seus interesses e
intenções, cada uma delas evidencia as tensões existentes nos cotidianos escolares das escolas públicas brasileiras,
nos processos atuais de avanço dos autoritarismos e pequenas tiranias, e as consequentes recusas e desobediências
diárias, constituintes das formas democráticas participativas e em assembleia das tomadas de decisões.
Palavras-chave: Cotidianos Escolares, Democracia, Radicalidade, Pesquisa em Educação, Resistência
Resumen
El presente artículo pretende presentar el trabajo realizado por un grupo de investigación de un programa de posgrado
en educación, de una universidad comunitaria con sede en una ciudad del estado de São Paulo, en Brasil, cuyos
proyectos entrelazan los temas de la democracia, la educación ambiental y los estudios en la vida cotidiana escolar. El
grupo, creado hace poco menos de tres años, tiene como objetivo comprender las manifestaciones y los significados
de la democracia en la vida cotidiana de las escuelas, entendiéndola tanto desde la perspectiva del régimen de gobierno
y la gestión escolar, a veces representativa, a veces participativa, como desde el punto de vista del ejercicio ético y
1
Universidade de Sorocaba, Brasil / rodrigo.barchi@prof.uniso.br / https://orcid.org/0000-0001-9198-1382
2
Universidade de Sorocaba, Brasil / prof.michelevigari@gmail.com / https://orcid.org/0000-0003-1541-5666
3
Universidade de Sorocaba, Brasil / 2015urata@gmail.com / https://orcid.org/0000-0001-8550-7916
4
Universidade de Sorocaba, Brasil / davifernandescosta@hotmail.com / https://orcid.org/0000-0002-2849-858X
5
Universidade de Sorocaba, Brasil / eri_nunes@yahoo.com.br / https://orcid.org/0009-0008-4768-1399
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político en la vida cotidiana de las escuelas, en la participación directa incesante, en la colaboración o la resistencia a
las prácticas de gestión. En este sentido, este texto se divide en tres partes, además de la introducción y las
consideraciones finales. En la primera, presentamos el proceso de creación del grupo, que se basa conceptual y
metodológicamente en equipos de investigación anteriores del mismo programa, y las perspectivas y estudios de la
vida cotidiana escolar en los que se debaten y elaboran los trabajos. La siguiente sección presenta las bases teóricas y
conceptuales en el ámbito de la democracia, especialmente en su dimensión radical, en el pensamiento de pensadores
contrarios a la separación entre Estado y sociedad civil, en el que las investigaciones sobre el tema se están potenciando
en las micropolíticas de la vida cotidiana escolar. En la última parte, presentamos el entrelazamiento y la
contextualización de cuatro investigaciones de doctorado, y su vinculación con el proyecto de investigación del grupo,
de modo que, a partir de sus intereses e intenciones, cada una de ellas pone de manifiesto las tensiones existentes en
la vida cotidiana de las escuelas públicas brasileñas, en los actuales procesos de avance de los autoritarismos y las
pequeñas tiranías, y las consiguientes negativas y desobediencias diarias, constitutivas de las formas democráticas
participativas y asamblearias de la toma de decisiones.
Palabras Clave: Cotidianos escolares, democracia, radicalidad, investigación en educación, resistencia.
Abstract
This article seeks to present the work carried out by a research group from a graduate program in education at a
community university based in a city of the state of São Paulo, Brazil, whose projects intertwine the themes of
democracy, environmental education, and studies in everyday school life. The group, established just under three years
ago, aims to understand the manifestations and meanings of democracy in everyday school life, understanding it both
from the perspective of school governance and management, sometimes representative, sometimes participatory, and
as an ethical and political exercise in the daily life of schools, in direct and incessant participation, in collaboration with
or resistance to management practices. In this sense, this text is divided into three parts, in addition to the introduction
and final considerations. In the first part, we present the process of establishing the group, which is conceptually and
methodologically based on previous research teams in the same program, and the perspectives and studies of everyday
school life in which the work is discussed and constructed. The following section presents the theoretical and conceptual
bases in the field of democracy, especially in its radical dimension, in the thinking of thinkers opposed to the separation
between the state and civil society, in which research on the topic is being enhanced in the micro-politics of everyday
school life. In the last part, we bring together and contextualize four doctoral research projects and their connection to
the group's research project, so that, based on their interests and intentions, each one highlights the tensions that exist
in the daily lives of Brazilian public schools, in the current processes of advancing authoritarianism and petty tyranny,
and the resulting daily refusals and acts of disobedience, which constitute participatory and assembly-based forms of
democratic decision-making.
Keywords: School Life, Democracy, Radicalism, Educational Research, Resistance
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Introdução
Este artigo é um relato de experiência em andamento, que visa apresentar algumas considerações sobre as atividades
investigativas, desenvolvidas em um grupo de estudos e pesquisas sobre os cotidianos escolares, e suas interconexões
com o campo da ecologia política e da educação ambiental. A intensão é desvelar as práticas democráticas
desenroladas nos
espaçostempos
de escolas das regiões das cidades de Sorocaba e São Paulo, ambas no estado de
São Paulo, Brasil.
Buscaremos, aqui, trazer não somente os trabalhos desenvolvidos pelas/os pesquisadoras e pesquisadores, nas
pesquisas de construção de tese de doutorado, mas também as discussões que o grupo desenvolveu, nos últimos cinco
semestres, na construção do referencial teórico de suporte na interpretação e compreensão das informações e dados
coletados nas pesquisas nos/dos/com os cotidianos escolares. Visamos, neste sentido, tentar desvelar que movimentos
políticos desenrolados no interior das escolas podem ser considerados como democráticos ou como intenções de
autoritarismo e concentração de força.
Para além da apresentação das atividades, esse artigo visa discutir o modo como a noção de democracia as atravessa
e as costura, no sentido do desvelamento das práticas cotidianas escolares que, ao serem resistentes, combativas e
produtoras de outras relações éticas e políticas nos
espaçostempos
da escola, criam e inventam democracias radicais.
As quais, por sua vez, ao se recusarem a serem compreendidas como regimes de governos, se propõe como exercícios
de coletividade autônoma em constante e simultâneo processo dispositivo de luta e afetividade.
O artigo se divide em três partes, sendo que a primeira busca desenvolver as bases teórico-metodológicas no campo
dos cotidianos escolares, que vêm sendo estudadas pelo grupo desde sua criação, em abril de 2023, especialmente
aquelas discutidas nas reuniões quinzenais e utilizadas pelas/os mestrandas/os e doutorandas/os em suas
investigações. Traremos as leituras coletivas realizadas não somente dos textos sobre os estudos nos/dos/com os
cotidianos em autores e autoras como Michel de Certeau, José Machado Pais, Nilda Alves, Inês Barbosa de Oliveira,
Janete Carvalho, entre outros mas também o debate teórico sobre a presença da governamentalidade neoliberal na
vida diária dos
espaçostempos
escolares, em especial, na obra de Michel Foucault, Pierre Dardot e Christian Laval.
A segunda parte visa apresentar o conceito de democracia como ferramenta interpretativa da micropolítica cotidiana
escolar, pensando-a mais como exercício ético-político do que como regime de governança ou gestão. Neste sentido,
a noção de democracia radical em pensadores como Antonio Negri, Andityias Mattos, Jean Tible e Paulo Freire, é
utilizada como potencializadora para pensar as práticas de resistência e luta política no enfrentamento aos exercícios
de tiranias e despotismos no âmbito do espaço escolar. Aqui, visamos entender como as articulações de sujeitos nos
cotidianos escolares não somente buscam garantir que direitos e garantias não se percam, mas também como poderes
constituintes, em microescalas, impeçam cristalizações de forças nesses espaços tempos.
Por último, trazemos quatro pesquisas de doutorado no âmbito desse grupo, ainda em andamento, que se apropriaram
da noção de democracia radical como resistência e luta cotidiana, para trazer à tona as práticas de desobediência à
tirania, a exposição as contradições do neoliberalismo na escola, os processos de sucateamento do espaço público, e
a militância de professoras/mães para garantir a permanência dos/as filhos com deficiência no espaço escolar.
Reforçamos que a proposta visa interpretar a democracia como exercício múltiplo de poder constituinte, luta política e
resistência em desobediência nos cotidianos escolares, e não somente como forjadora dos sujeitos e coletividades nas
escolas. Sugere-se compreender a democracia como estratagema para garantir que a política escolar, para se entender
como democrática, não se pauta somente na garantia de participação de todos, mas, principalmente, como espaço
aberto de encontros e forças potencializadoras de outras formas de existência e convívio educativo. É nesse sentido
que o presente texto busca contribuir ao campo dos cotidianos escolares, interpretando a democracia como elemento
e ferramenta constituinte da vida escolar, e não somente consequência de práticas políticas em esferas superiores.
Cotidianos escolares
A Universidade de Sorocaba (UNISO), é uma universidade comunitária sediada na cidade de Sorocaba, no Estado de
São Paulo, Brasil, que, de acordo com a Constituição brasileira, é gerida pela sociedade civil e tudo o que é criado e
produzido por ela, volta a si própria. Foi criada em 1994, tendo como embrião a Faculdade de Filosofia Ciências e
Letras de Sorocaba, a qual, fundada em 1951, é uma das primeiras do interior do país. Foi na UNISO também onde se
criou o primeiro Programa de Pós-Graduação em Educação da região de Sorocaba, em 1996, no qual o Grupo de
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Pesquisas em Democracia, Ecologias e Cotidianos Escolares (GEDECE) está estabelecido desde 2023. Ele se espraia na
esteira de dois grupos anteriores Perspectivas Ecologistas em Educação, que durou de 1998 a 2022, e Ritmos de
Pensamento, que existiu entre 2014 e 2021 que tinham nos cotidianos escolares seus focos principais de estudo,
entre os diálogos com a educação ambiental (Reigota, 2010), a arte e a cultura (Romaguera et al, 2021).
O GEDECE, por sua vez, além de levar em consideração os diálogos dos cotidianos escolares com educação ambiental,
a cultura e as artes, tem como enfoque o levantamento das manifestações democráticas nos
espaçostempos
6
das
escolas, numa perspectiva não necessariamente focada na governança e/ou gestão escolar por parte de direções e
coordenações, mas o inverso. Ou seja, nas práticas reivindicativas, dissonantes e disjuntivas por parte de membros da
comunidade escolar, conforme veremos na seção seguinte.
Devido à pandemia, as reuniões dos Grupos de Estudos, após a pandemia, passaram a ser online, através da plataforma
Teams
, e ao iniciar suas atividades, o GEDECE também se deu nesse formato. As reuniões quinzenais envolvem
mestrandos/as, doutorandos/as, alunos/as do programa de Iniciação Científica Voluntária (PROVIC-UNISO), professores,
coordenadores e diretores das redes públicas municipal e estadual de educação, convidados a partir de seus interesses
profissionais e acadêmicos, na temática da interface entre ecologia política, democracia e cotidianos escolares.
Atualmente, segundo semestre de 2025, o grupo conta com aproximadamente 20 integrantes em suas reuniões.
No primeiro semestre de 2023, o grupo iniciou suas atividades em meados de abril, com a leitura de alguns artigos de
introdução à noção de cotidianos escolares, visto que a maior parte de seus integrantes estava vinculada aos grupos
de práticas educativas e formação de professores, que não eram necessariamente o foco de interesse da pesquisa
das/os estudantes e pesquisadoras/es. Foram feitas leituras e discussões de alguns textos que consolidaram o campo
dos cotidianos escolares no Brasil, no último quarto de século, como os de Nilda Alves (2001; 2003; 2007), e suas
parcerias com Inês Barbosa de Oliveira (Alves; Oliveira, 2004) e Regina Leite Garcia (Alves; Garcia, 2002); além dos
textos da própria Inês Barbosa de Oliveira (2016) e Carlos Eduardo Ferraço (2007).
De agosto de 2023 a junho de 2024, o foco foi a noção de cotidiano, especialmente em referências básicas em
sociologia, etnografia e história, que por sua vez, pautaram os textos discutidos no semestre anterior, de modo que a
apropriação do cotidiano como ferramenta e método da pesquisa em educação escolar, fosse devidamente concretizado
pelas pesquisas, especialmente as de doutorado. Foram lidas as obras de José de Souza Martins (2014), Agnes Heller
(1972), José Machado Pais (2002) e por fim, a obra de Michel de Certeau. (1994).
Especialmente após o debate sobre a obra de Certeau - no que tangia o embate que trava com Michel Foucault ao redor
das noções de estratégias e táticas- estando as noções ao redor de cotidiano devidamente estabelecidas perante o
grupo, o mesmo decidiu indicar a necessidade do estudo ao redor das formas de poder, do exercício e regime
governamental, e da economia política. Isso para traçar e cartografar tanto as influências e presenças dos métodos de
dominação e exploração nos cotidianos escolares, quanto para compreender a sua indomabilidade perante o assédio
das práticas de exploração, hierarquização e exclusão em seu âmbito.
Nesse sentido, para o segundo semestre de 2024, foi decidido que a obra a ser discutida seria o curso ministrado por
Michel Foucault no College de France, traduzido e publicado no Brasil como “Segurança, Território, População”, na
qual, em sua interpretação sobre os exercícios de poder governamental, Foucault (2008a) amplia o debate ao redor da
noção de biopolítica que havia iniciado no curso de 1976 (Foucault, 1999), e que iria culminar, justamente, no
“Nascimento da Biopolítica” (Foucault, 2008b). Nesta, o pensador francês, nas aulas de 1979, destrincha
detalhadamente o neoliberalismo que pauta a governamentalidade, que hoje se apresenta com toda a intensidade na
sociedade e, consequentemente, nos cotidianos escolares brasileiros.
A proposta, portanto, era entender, a partir da leitura dos cursos de 1978 e 1979, como o neoliberalismo está presente
e pauta a agenda de gestão política e econômica escolar na atualidade. No primeiro curso, entender a governança da
população. No segundo, entender a ação do capitalismo neoliberal nas estratégias governamentais, no âmbito da
mudança curricular, no tempo escolar, no espaço físico, nas relações de poder no ambiente escolar, e nas próprias
produções de sentido ou suas ausências (Reigota, 2021) nos discursos e conversas cotidianas.
6
Como lembra Campos (2020), Nilda Alves e os estudos nos/dos/com os cotidianos escolares no Brasil, vem utilizando a aglutinação de
palavras que foram separadas na dicotomização da ciência moderna, ou que muitas vezes entoam sentidos antagônicos quando grifadas
disjuntivamente.
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Ao final de 2024, o grupo decide realizar mudanças na dinâmica dos encontros, e nas próprias leituras. Para os primeiros
semestres dos anos letivos, sugere-se a discussão sobre cotidianos escolares e métodos de pesquisa para dar conta
das especificidades do campo, e para os segundos semestres, a leitura teórica da questão relativa à política, à sociedade
e à conceituação teórica do mundo contemporâneo. E, nessa toada, foi decidida uma mudança para a discussão sobre
o neoliberalismo. Dada a necessidade de uma atualização sobre o capitalismo selvagem contemporâneo, ao invés da
leitura do texto de Foucault, foi solicitada a discussão sobre a obra de Pierre Dardot e Christian Laval (2016), sobre a
história e perspectiva teórico e política do neoliberalismo. A qual está sendo discutida na segunda metade de 2025,
momento em que este texto está foi escrito.
Para o debate, assimilação e compreensão sobre os estudos nos cotidianos escolares e as possibilidades investigativas
nos/dos/com os mesmos, a dinâmica foi chamar as teóricas e teóricos para conversar com o grupo, em suas reuniões
online/remotas. De março a junho de 2025, o grupo recebeu a visita de Nilda Alves, da UERJ, e de Andreia Ramos e
Soler Gonzalez, da UFES, para conversar sobre os cotidianos; de Paula Henning, da FURG e Silvio Gallo, da Unicamp,
para compor os aspectos teóricos e a presença das filosofias da diferença nos estudos dos cotidianos; de Thiago Correia,
da UFTM, para propor as narrativas ficcionais e a fenomenologia, para a escrita das dissertações e teses; as/os colegas
mexicanos Lorena Córdova e Abrahám Nahon, da Universidade Autônoma “Benito Juarez” de Oaxaca (UABJO), para o
diálogo entre Cultura, Arte e Educação; e o professor da Universidade Autônoma da Cidade do Mexico (UACM), Miguel
Angel Ortega, para propor a radicalidade da Educação Ambiental como exercício de resistência contra os ecocídios.
Os estudos nos/dos/com os cotidianos escolares, no âmbito do GEDECE, portanto, vem assumindo uma radicalidade
política, social e cultural, que percebe a indiscernível relação entre o que ocorre nos microespaços do cotidiano escolar,
e as tomadas de decisão, simultâneas e recíprocas, das gestões estatais e da esfera corporativa privada. Nas reuniões,
a sensação de desamparo, de imobilidade, de violento assédio às liberdades de cátedra, e de desmoronamento da
estrutura escolar, é ampla, nítida e crescente. Além do fato das decisões tomadas por parte dos poderes Executivo e
Legislativo brasileiros serem de cada vez maior sucateamento e perseguição às educadoras e educadores.
A democracia, nas macroesferas do poder constituído, parece cada vez mais estrangulada e opaca. Um exemplo, é que
na mesma semana na qual este texto foi construído, a Câmara dos Deputados no Brasil decidiu aprovar, por larga
maioria de votos, o Projeto de Emenda Constitucional que blinda membros do poder legislativo de serem investigados
e intimados pelo poder judiciário, garantindo ampla possibilidade de impunidade e corrupção. Apesar do texto ter sido
barrado no Senado, devido às imensas pressões populares, a necessidade de vigilância, perante o assalto à esfera
pública, acaba por ocupar espaços de decisões devidamente voltadas às reivindicações populares, no que diz respeito
à diminuição da desigualdade, e da promoção de justiça social.
Neste sentido, como a democracia pode ser capaz de resolver as demandas e diminuir a sensação de insegurança e
paralisia forçada, por parte das educadoras e educadores, sendo que é justamente a partir das eleições e da democracia
representativa, que o cotidiano escolar, por parte das educadoras e educadores, torna-se cada vez mais insalubre e
infernal? A democracia é incapaz de resolver? Ela foi cooptada pela minoria interessada exclusivamente no aumento
de suas riquezas? Foi fraudada e destruída? Ou há outras democracias?
Democracias radicais
A noção de democracia que pauta as discussões e pesquisas no âmbito do GEDECE não se restringe aos regimes de
governos e/ou de maior ou menor intensidade da mesma, no que diz respeito ao seu escopo representativo, participativo
ou mesmo “representativo-participativo”. Sob a égide de um Estado tutelador e separado da sociedade civil, como na
crítica à Hegel (Marx, 2013) e nos textos da Comuna de Paris, Marx (2011) chamava a atenção para essa questão.
Não que a democracia estatal nas oligarquias liberais contemporâneas não possa ser caracterizada e entendida como
tal, mas a proposta o pensar democracia nos cotidianos escolares parte, na perspectiva de Hardt (1996), de uma
radicalidade pautada pelas relações constituídas por aqueles que vem de baixo, num processo de desmoronamento
das relações verticais e hierarquizadas.
Uma política prática de corpos sociais libera as forças imanentes das estruturas de formas
pré-determinadas, para descobrir seus próprios fins, inventar a sua própria constituição.
Mais uma vez, descobrimos que a produtividade do ser social corresponde à sua
produtibilidade. A sociedade horizontal é o lugar aberto que alimenta a criação e a
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composição prática, tanto quanto a destruição e a decomposição. O modelo dessa
constituição é a assembleia absoluta e igual de todo o plano imanente? A democracia, como
Espinosa gosta de assinalar, é a forma absoluta de governo. (Hardt, 1996, p. 183-184)
Na interpretação da crítica da filosofia deleuziana e sua carga espinosista, Hardt pauta o debate político na intensa
recusa à representação que o pensamento político do filósofo francês, a partir da interrogação ao próprio Espinosa, à
Bergson e a Nietzsche, realiza à tradição hobbesiana, rousseauniana e hegeliana sobre a unificação do político em torno
do Estado. A recusa à identidade e ao
telos,
na perspectiva deleuziana, e a utilização que Hardt faz na construção do
que chama de democracia radical, é justamente na resistência que a “multiplicidade da organização” e os
“agenciamentos de potência” impõem à ordem e ao poder constituído.
O movimento proposto por Hardt, no que diz respeito à democracia como movimento incessante de uma multiplicidade
indomada, irredutível à identidade e de infinita
potentia,
se articula tanto com o poder constituinte da
multitude
espinosita na qual o direito civil é o direito de natureza exercido a partir do
conatus
(perseverança na existência) do
sujeito individual e coletivo em constante conexão e articulação, quanto na própria interpretação que Antonio Negri
(2002) realiza de Espinosa e Marx, ao sugerir a própria democracia como o poder constituinte.
Não um poder constituinte que se coloca como o processo e ou o caminho para o estabelecimento do poder constituído
e consequente Constituição, mas como o outro em recusa, em resistência e irreconciliável unificação. Em outras
palavras, na perspectiva que Hardt desenvolve a partir de Deleuze e que Antonio Negri propõe a partir do filósofo
holandês e do pensador alemão na caracterização de movimentos constituintes na modernidade - a democracia como
o poder constituinte irredutível ao Estado e ao poder constituído, a mesma pode ser considerada como o processo
de constante enfrentamento, resistência, desobediência e estranhamento ao sempre barbaricamente instituído.
A democracia, como poder constituinte, na sugestão de Negri, não pode ser entendida como só o negativo, que recusa
por ontologia do ser rebelde e insubmisso, e que a todo custo, mesmo no escopo das democracias governamentais
representativo-participativas, precisa ser debelado e combatido, com o risco de trazer à tona o autoritarismo. Mas sim,
um negativo que carrega em si um afirmativo outro, como, por exemplo, na Comuna de Paris. Aliás, há todo o cuidado,
principalmente para Hardt e Negri (2018), em não confundir qualquer movimento de massa contra o poder com
democracia ou poder constituinte. Visto que, em boa parte, muitas dessas turbas têm como única e exclusiva intenção
o estabelecimento de ditaduras e a adoração às lideranças carismático-populistas.
O que caracteriza as multidões democráticas são, em grande parte, o exercício ético-político de deparar-se frente ao
outro, em toda sua diferença e singularidade, e a criação de agires em comum, ao mesmo tempo em que buscam
potencializar e enaltecer a própria distinção em relação ao outro. Multidão/
multitudo
não são massas uniformizadas
sob um canto único em defesa de bandeira identitária ou messias coroados, mas mosaicos ininterruptos de cores, sons,
vibrações e anseios, do embate ao poder constituído, apagador das diferenças e das multiplicidades. Neste sentido,
somente singularidade potentes e autônomas, conseguem se conectar às outras em comum, na construção de forças
coletivas de revolta e insubmissão.
A multidão em diferença infinita, num processo de brutal recusa ao uno, ao idêntico e ao fatalismo destino dado por
uma essência humana criada pelas invenções modelares da filosofia platônica, numa força constituinte que não se
ajoelha nunca a acordos tecidos para a constituição que impede sua força, é o que Negri (2002, 2016) sugere, em
Espinosa e Marx como a democracia radical, ininterrupta e incessante. Ao invés de uma tradição burguesa, na qual o
poder constituído é o
telos
para o qual é necessário se dar todo o direcionamento da potência do poder constituinte
na transformação da democracia constituinte e participativa da multidão em democracia representativa no Estado, na
lei e na soberania e seu consequente apagamento, a proposta da radicalidade democrática nos marxismos dissidentes
e no comunismo negriano (Altamira, 2008), é justamente o impedimento da submissão da imanência do poder
constituinte para a transcendência estatal e soberana.
Esse comunismo “rechaça toda estrutura, todo partido em que as revoluções moleculares e o antagonismo sejam
subordinados para fins molares” (Altamira, 2008, p. 446), e recusa qualquer mediação estatal ou financeira nas relações
éticas, políticas, econômicas e culturais entre os indivíduos e coletividades. Não uma democracia limitada, restrita à
representação e mediada por agentes fora do corpo da multidão, mas radicalmente absoluta. Na qual qualquer
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legitimação sobre o apagamento das diferenças sob o argumento de pacificação, ordenamento e defesa dos interesses
de um “bem maior e para a maioria” seja exposta e enfrentada em sua face mais barbárica, tirânica e despótica.
Nessa perspectiva, ainda, Matos e Souza (2017; 2021), em uma dimensão que, para além de uma perspectiva de
comunismo ininterrupto, sugerida por Negri e Guattari (1999), trazida à tona por Altamira (2008), atrelada ao desejo e
escopo da ação multitudinária (Negri e Hardt, 2005, 2018), é an-árquica, e que não somente se desenrola como um
poder constituinte mas, simultaneamente, é desistintuinte. Ou seja, nas práticas de um exercício político antagônico e
resistente ao poder constituído, necessariamente também exerce uma prática de destituição ao da soberania protetora
dos privilégios garantidos aos detentores do poder de força, violência e autoridade legal.
El deseo de libertad se traduce, ya no en la dialéctica entre poder constituyente y
poder constituido, sino en la relación horizontal entre poder desinstituyente y poder
constituyente permanente. Si bien el proceso histórico de afirmación del derecho
occidental se fundó en la violencia apropiadora y jerarquizante, algo que es incontestable,
no existe motivo alguno para afirmar que siempre será así y que toda productividad lleva
consigo el signo de ese arjé. (Matos; Souza, 2021, p. 16)
A deslegitimação do Estado, na proposta de Matos e Souza e também na perspectiva de Matos (2022), com a noção
de an-arquia como recusa do Estado como proprietário da
arkhé
, que lhe daria o direito à tutela social através da
desapropriação do direito natural de comando e controle da população é também e pensando num Marx radical e
anárquico, plenamente contra o Estado (Rubel, 2012; Pogresbinchi, 2009; Tible, 2020) e propositor de uma ditadura do
proletariado brutalmente radical e contra o Estado fazer desmoronar a legitimidade da exclusividade do poder político
estatal. Isso, no processo de desobediência, resistência e enfrentamento, ao romper com a noção de luta dialética
opositora e evolutiva, entre sociedade civil e Estado, impõe-se o lugar da horizontalidade recíproca e ininterrupta da
constante destituição política com a construção de outras sociabilidades na democracia radical do poder constituinte.
Em outras palavras, na perspectiva de radicalidade política e aqui também evocando Marx (2011), ao observar que
na ação dos
communards
, contra o Estado, estava a ditadura do proletariado e a democracia, indissociáveis e em
intensidade extrema de interromper e destruir a separação entre sociedade civil e o Estado, é que está a necessidade
de não disjuntar poder desistituinte e poder constituinte, visto que qualquer resquício das autoridades e hierarquias do
Estado capitalista podem ser perigosas na construção das políticas radicais.
Essa noção radical de democracia encontra em Paulo Freire uma íntima estreita ressonância, apesar de, com exceção
de Marx, o pensador pernambucano não ter feito, em sua obra, maiores considerações sobre as referências marxistas
à democracia na Comuna de Paris, a separação entre sociedade civil e Estado, ou mesmo sobre possibilidades sociais
e políticas ao redor de uma democracia anarco-comunista. Mas quando, por exemplo, em “Cartas a Cristina” (Freire,
2013), propõe que a democracia mesma não pode ser ensinada como uma forma modelar e cristalizada de ideia plena,
mas sim precisa ser exercida no exercício do ensino e da aprendizagem como prática ética nas relações cotidianas da
escola, Freire aponta sendo esta, inclusive, a aposta epistêmica dos estudos em democracia no GEDECE uma larga
aproximação com a perspectiva radical até aqui exposta.
Isso porque Freire (2013), na recusa de uma noção cristalizada e formal de democracia, denuncia que seu escopo
meramente político-eleitoral promove a degradação da participação coletiva e o constante aperfeiçoamento das ações
de não somente a negar às pessoas o direito de comer, trabalhar, morar, estudar, ler e ir e vir. Assim como remove o
direito das pessoas ao exercício livre da cultura, da economia e da sociabilidade, ao impor um modus operandi exclusivo
da concorrência, do trabalho alienado e da hierarquização da vida.
Além disso, e na esfera cotidiana das escolas, Freire denuncia que as próprias relações de ensino e aprendizado
precisam, numa perspectiva democrática e antiautoritária, minuciosamente serem construídas também para que não
se caia naquilo que chamou de licenciosidade. A qual, por sua vez, torna-se um impeditivo ao exercício democrático,
pois impede o diálogo e a troca de saberes, já que deixa o compromisso e a responsabilidade de lado, ao dar ao “grupo
licenciado” uma liberdade que ao invés de se tornar luta coletiva, transforma-se em competição barbárica e derrocada
da relação horizontal ético-política entre os indivíduos.
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Não quero dizer que a autoridade que confronta a situação em que a liberdade se recusa a
assumir o limite necessário a ela cruze os braços e deixe que as coisas fiquem como estão.
Essa capitulação da autoridade a torna licenciosa e, dessa forma, anulando-se como
autoridade, em nada contribui para a autenticidade da liberdade. O exercício democrático
se sacrifica nessa distorção da relação autoridade-liberdade. (Freire, 2013, p. 239)
É no sentido de uma democracia que se ensina praticando, é que Freire busca justamente caminhar na linha tênue
entre autoritarismo e licenciosidade. Propõe a liberdade democrática como prática ética, visto que exige a presença e
o diálogo direto com outro, e também como exercício político, visto que somente na construção em comum de intenções
de transformação, é que a coletividade consegue se fazer força perante regimes, gestões e condições autoritárias e
despóticas.
Em outras palavras, a democracia, como
agirpensar
autoridade e liberdade, em comunalidade, parceria, conexão e
tessitura, são justamente a desobediência e a recusa à tirania do uno, do individual do mau egoísmo
7
e de autocracias.
Essas últimas, possibilitadas somente quando enaltecem e propagam os interesses individuais que serão atendidos sob
a renúncia da liberdade, em nome do autoritarismo. Ao ser exercício junto ao outro, a democracia radical freireana se
alinha às perspectivas radicais dos marxismos heterodoxos dissidentes de Negri, Tible, Progresbinchi e Rubel,
discutidos anteriormente, e recusa a representação e a “carta branca” na tomada de decisões.
Desobediências, resistências e presenças
Sendo assim, quando se propõe estudar a democracia nos cotidianos escolares, a intenção do GEDECE não é investigar
somente pensando freireanamente o tom, a forma e a intensidade na democracia presente no currículo e na fala
das professoras e dos professores. Mas, principalmente, como a democracia é exercida e pensada para além dos modos
de como é dita e ensinada como o direito ao voto e às outras práticas de participação da sociedade civil junto ao Estado.
Ou seja, a proposta é compreender a construção dos exercícios coletivos de reivindicação, recusa, desobediência e
resistência às práticas autoritárias nos cotidianos escolares. Seja como luta aos microfascismos nos
espaçostempos
escolares, seja como a própria comunidade escolar se mobiliza em lutas coletivas contra despotismos de gestões
estatais ou assédios de corporações privadas a estes coletivos, dada a ausência cada vez maior do Estado em gestões
neoliberais.
Ao mesmo tempo em que apresentamos cada uma das investigações em andamento, em suas intenções específicas
de desvelar os cotidianos escolares, trazemos aqui, como exercício de interpretação e compreensão coletiva do grupo,
alguns destaques, acontecimentos e elementos marcadamente compostos de recusa, resistência, embate e construção
de modos outros de relacionamento ético-político, constituintes, autônomos e ininterruptos.
Neste sentido, a primeira das quatro pesquisas no âmbito de doutorado que visam auxiliar neste diagnóstico,
desenvolvida desde 2023, visa compreender a presença e a influência do neoliberalismo nos cotidianos escolares de
creches, e seu impacto no processo de inclusão de crianças com deficiência de educação infantil. Em especial,
buscando interpretar o quanto essa presença de uma perspectiva brutal de capitalização da vida forja a subjetividade
docente.
Construída metodologicamente no escopo do método cartográfico (Passos, Kastrup, Escossia, 2009; Kastrup; Passos,
2013), a partir da trajetória de uma professora imersa nesses cotidianos, observa-se até agora, um largo movimento
de sucateamento do espaço público. Isso perante as condições cada vez mais precárias dos espaços públicos, não
estando as creches isentas dessa derrocada, e do estabelecimento de uma cultura moral da individualidade e da
competitividade.
Em relação à democracia, esse processo, além de inviabilizar cada vez mais o
espaçotempo
público como dispositivo
de práticas coletivas e em comum, também impede o avanço de uma cultura de trocas dialógicas. A qual, como prática
ético-política, seria capaz de fazer os indivíduos compreenderem que a resolução de questões decisórias precisa passar
pela ação democrática de integração de singularidades múltiplas. Em outras palavras, ao destruir o sentido coletivo
participativo do espaço público, em nome da individualização e competitividade dos interesses individuais, o avanço da
7
Aqui nos aproveitamos da sugestão de Onfray (1999) entre o bom hedonismo, dos atendimentos à uma vida prazerosa compartilhada, e o mau
egoísmo, do atendimento aos anseios de um em detrimento das multidões e dos explorados.
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lógica neoliberal nas creches é um catalisador do autoritarismo e da destruição da potência democrática dos cotidianos
escolares.
Portanto, aqui a democracia se apresenta e se cria como recusa, indignação e revolta, a partir do momento em que
caracteriza movimentos autoritários do capital neoliberal, que aparentemente são travestidos de naturais e
transcendentes. A pesquisa e o relato dessa destruição dos
espaçostempos
coletivos, além da narração de histórias de
resistência de educadoras e funcionárias ao autoritarismo na gestão pública, mostra-se como democracia em sua
radicalidade.
A segunda pesquisa, também desenvolvida desde 2023, busca entender, a partir de conversas e entrevistas com
gestores da educação pública municipal de Sorocaba, os enredamentos no exercício cotidiano de dirigir escolas, perante
o avanço da lógica neoliberal, cuja intenção, na depreciação dos
espaçostempos
públicos e coletivos, é fazer com que
a gestão se paute em tornar as escolas em espaços de eficiência financeira e máquina de resultados avaliativos.
Algumas das indagações, que no decorrer dessa investigação estão se desvelando, é o quanto, ao equiparar as escolas,
em sua administração, às corporações empresariais preocupadas exclusivamente com resultados, os novos modos de
gestão escolar não somente esfacelam e desrespeitam os princípios da gestão democrática, estabelecidos na legislação
federal. Assim como compreender a geração e proliferação de um gigantesco mal-estar quando não, graves
problemas psicoemocionais entre diretoras e diretores que, ao se constituírem enquanto educadores e gestores
educacionais, tem as bases teóricas de sua formação completamente desrespeitadas e desobedecidas pelo avanço do
neoliberalismo.
Ao desmontar os princípios democráticos da gestão escolar, em nome da eficiência corporativa financeira e da cobrança
por resultados avaliativos, sob o risco de punição e desligamento, não somente a lógica neoliberal vem enfraquecendo
o papel do diretor como liderança democrática no ambiente escolar, pensando no papel das lideranças na construção
democrática em Hardt e Negri (2018). Mas também legitima a própria escola como lugar privilegiado na construção de
uma cultura do assédio ao fracasso de gestões não competitivas.
Aqui, apesar das mesmas indicações ao redor do sucateamento do espaçotempo coletivo da escola, há uma perspectiva
que o mal-estar não é somente de docentes, estudantes e familiares, mas também do estrato superior da escola, que
é a gestão. A qual muitas vezes, apesar da tentativa constante e democrática de garantir o melhor possível o
funcionamento da escola como lugar de coletividade e autonomia, enfrenta práticas autoritárias e ditatoriais a partir
das tecnoburocracias e do atendimento quase que exclusivo aos resultados classificatórios.
Sob uma perspectiva autoetnográfica (Adams; Bochner: Ellis, 2011; Custer, 2014), na qual o próprio pesquisador ou
pesquisadora visam compreender tanto a construção cultural dos espaços no qual estão inseridos/as, quanto os próprios
processos de forja pela qual a subjetividade e presença desse pesquisador/a educador/a nos coletivos escolares são
simultâneos e recíprocos, são desenvolvidas as duas próximas investigações. Quando permite ao pesquisador e
pesquisadora narrar-se, a autoetnografia, nas pesquisas nos/dos/com os cotidianos traz à tona uma série de elementos
menores e instersticiais, que são cruciais para compreender o quanto a presença e/ou ausência dos sentidos são
construídas e propagadas nesses cotidianos.
Em uma das pesquisas, o conceito de desobediência é a ferramenta para entender as lutas, revoltas e embates
cotidianos, por parte da coletividade que se forma nas escolas, perante o avanço do autoritarismo por parte das políticas
de administração das instituições escolares da cidade de São Paulo. Esse autoritarismo, também atrelado ao escopo
neoliberal na gestão escolar e na intervenção curricular, na capital paulista ganhou um elemento ainda mais bruto, que
é o deslocamento de diretoras e diretores das escolas com índices avaliativos com pior resultado. Assim como de
gestores/as que fizeram questionamentos aos superiores e à política de educação pública da cidade.
As remoções, os deslocamentos, a pressão e o assédio, como modo de submeter as gestões escolares sob uma rédea
rígida, ao mesmo tempo em que acusa as e os gestores de baixo desempenho, mostra-se também como estratégia de
dano às possibilidades democráticas no cotidiano escolar. Essa prática não somente desarticula os encadeamentos
realizados nos movimentos de tomada de decisão coletiva, como também aponta para a necessidade de impedir a
autonomia da comunidade escolar.
Para além do relato dos incômodos vividos pela comunidade a partir da retirada da autonomia da escola, se e se
relatam as práticas coletivas de resistência e tentativa da manutenção da coletividade como articulação, participação
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e movimento de decisão política conjunta. Quando estudantes e educadores/as se entrelaçam e conectam em lutas
contra decisões governamentais pautadas em perseguição e assédio e a derrocada da autonomia, a democracia
como prática de enfrentamento dá um passo adiante ao narrado nas duas pesquisas anteriores.
No entanto, ainda se ampara pelas manifestações individuais de resistência, que estão espalhadas no incômodo em
comum. Mas avança ao tornar o incômodo em comum na luta ética, política e social.
Por fim, a última das quatro investigações, visa compreender, em primeiro lugar, o processo de construção das
subjetividades de mulheres professoras que, ao se tornarem mães e receberem diagnóstico de Transtorno do Espectro
Autista de seus filhos e filhas, passaram a criar redes de apoio e luta pela inclusão dessas e outras crianças nas escolas.
E também o inverso, ou seja, de desvelar toda a transformação cultural dos cotidianos escolares, a partir do movimento
de mães de crianças autistas que se tornaram professoras. Não somente como estratégia para garantir esse direito à
presença dessas crianças na escola, mas também de construírem para si, e consigo próprias, formas outras de
sobrevivência e resistência.
A autoetnografia, não somente da
mãeprofessora,
pesquisadora do cotidiano escolar e do conjunto de elementos que
compõe a paisagem do
espaçotempo
da escola, mas também das redes tecidas pelas outras mães também educadoras,
permite inclusive como prática de resistência, nas palavras de Miranda (2022), contra-hegemônica entender o
quanto a necessidade de um processo de conexão coletiva para garantir a presença das crianças com necessidades
especiais na escola, se faz como método irreconciliável à pesquisa. Isso porque traz à tona trajetórias e experiências
em comum ora isoladas, hora em conectividade a outros/as que ao se entrelaçarem às lutas cotidianas simultâneas
às suas, e tornarem recíprocas, dão à democracia, nas micropolíticas do cotidiano escolar, elementos constituintes em
diferença e diferenciação.
Ao desvelar as democracias cotidianas que não são interrompidas e/ou garantidas por leis, na realidade mostram que,
apesar da garantia jurídica, outras demais lutas precisam estar sempre em constância para que não haja a
transformação desses direitos em letra morta, e processos de exclusão das crianças com necessidades especiais e
consequentemente, de suas
mãesprofessoras
no bojo da própria lei. Em outras palavras, a luta pela garantia de uma
escola que atenda às necessidades especiais de cada criança e não somente a jogue na escola como mais um
problema é poder constituinte constante, visto que também é luta contra os modos de ação do Estado.
A tessitura entre essas quatro pesquisas está no fato delas terem, simultaneamente, partido de incômodos individuais
em comum. Que por sua vez, são incômodos de educadores e educadoras que vêm de suas comunidades escolares
também incomodadas. As quais estão entrelaçadas a partir de um projeto de pesquisa, no nosso grupo, que tem como
intenção investigar justamente os incômodos, manifestos, resistências, recusas, criações e invenções de outras
democracias, para além de regimes de governos.
A compreensão das práticas democráticas, micropolíticas e cotidianas, em seus ininterruptos processos de
contrariedade ao exercício de apagamento das coletividades, éticas autonomistas e cooperativas, e de promoção do
bem comum em nome do mérito, da competição, do privado e do individual, típicos do neoliberalismo contemporâneo
-, narradas por quem também está na resistência e na luta, dão ao campo dos cotidianos escolares elementos,
ferramentas, conceitos e categorias interpretativas que visam entende-los como espaços privilegiados das
radicalidades democráticas.
Considerações finais
As quatro investigações de doutorado que apresentamos, discutindo, averiguando e diagnosticando se as lutas nos
cotidianos escolares se apresentam como democráticas ou somente como manifestos de fortalecimento do poder
constituído na escola, se dão sob o bojo de um projeto de pesquisa que visa averiguar o quanto os exercícios de luta
ética e política se aproximam das posições apresentadas, em democracia radical, nos marxistas e anarquistas
heterodoxos.
Essas perspectivas das escolas de pensamento socialista libertária e científica, estão veiculadas a um intuito de
desvincular o pensamento marxista da ideia de que só a tomada do Estado pode garantir a revolução contra o capital.
Como propõe Tible (2020), ao fazer dialogar Marx com Clastres e Kopenawa, esse posicionamento é da recusa em
entender o Estado como o catalisador de um projeto e um caminho, que vise livrar a sociedade do capitalismo, visto
que só a partir do Estado que este se mantém.
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A noção de democracia como poder constituinte e desistituinte, que pauta os trabalhos do GEDECE, e que é possível
de ser entendida como propagada por todas as dimensões da vida cotidiana numa radicalidade freireana social e
das escolas, está, em nossa aposta, muito mais atrelada ao que Marx propõe nos textos sobre a ditadura do proletariado
fora do Estado, na Comuna de Paris, do que nas interpretações leninistas de que a ditadura se faz no Estado, com
automática aprovação popular, sem votação, plebiscito, participação ou assembleia.
E é nesse sentido de uma democracia alastrada por todas as dimensões da vida humana em conflito com o
autoritarismo, despotismo e fascismo espraiado do mesmo modo é que está o exercício político da democracia. Ao
se propor como exercício constituinte, a democracia é fenômeno a ser observado não somente no Estado, mas numa
sociedade civil que, para além de sua reivindicação ao Estado, também, e especialmente, faz política pra além, fora e
contra ele.
Que não se confunda a perspectiva democrática com qualquer ação contra o Estado. Entende-se aqui a democracia
como as lutas pelas construções coletivas de autonomia, e de ampla participação e ação nas vidas cotidianas.
Movimentos contrários aos Estado, com a intenção de implantar outro tipo de domínio ao mesmo como movimentos
fascistas contra a democracia estatal, em nome de uma tirania e autocracia não podem ser chamados de
democráticos, mas de fascistas.
As pesquisas desenvolvidas no âmbito do GEDECE, visam entender as manifestações da dimensão da luta cotidiana
que não tem como intenção a tomada de poder, seja nas micro ou nas macroesferas cotidianas. A democracia, nas
perspectivas dos trabalhos desenvolvidos, é um exercício de resistência, de recusa, de desobediência. Mas não é só o
negativo. É também construção radical, intensa e ininterrupta de novas formas de convívio, baseada em redes de
solidariedade, fortalecimento mútuo e distribuição crescente de responsabilidade e autonomia.
A inversão democrática e política que estes trabalhos vêm propondo, assim como as leituras e discussões realizadas
pelo grupo, não intencionam necessariamente propor pesquisas contributivas para a manutenção e fortalecimento de
um certo modo de democracia representativo, limitado e fragilizado pela ampla alienação em relação às questões
macropolíticas da sociedade. A intenção é propor a democracia tanto como categoria de interpretação da vida cotidiana
escolar, quanto entender essa democracia, radical e constituinte como potencializadora de criar indivíduos e
coletividades intensamente participantes nas tomadas de decisões nas/das/com as escolas.
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