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/ pp 107-119 / Año 13 Nº24 /
JULIO 2026 – NOVIEMBRE 2026
/ ISSN 2408-4573 / DOSSIER TEMÁTICO
docentes normativas e autoritárias com pedagogias de acolhimento e afeto. E, por fim, nas considerações em aberto
intituladas
A escola como campo de (re)invenção e pluralidade,
apresentamos os achados deste estudo analítico com
ramificações para outras possibilidades de análise.
Uma cartografia de mapas (in)desejados
Heartbreak High
é uma narrativa midiática seriada que apresenta trajetórias de personagens, em um mundo fictício, na
escola
Hartley High
, localizada em Sydney, Austrália. As linhas que delineiam essa narrativa se ramificam a partir do
escândalo do mapa do sexo, um mural construído às escondidas e que expõe relacionamentos íntimos dos estudantes.
A ideia surge como uma brincadeira entre amigas - Amerie e Harper - motivada pela curiosidade juvenil em explorar e
compartilhar informações sobre as experiências afetivas e sexuais dos/as colegas da escola. Esse mapa nasce como
estratégia de autoafirmação e pertencimento naquele universo adolescente. Entretanto, quando o documento se torna
público, transforma-se em instrumento de exposição, vigilância e julgamento, desencadeando conflitos que atravessam
o espaço escolar.
Tensões eclodem e isso causa embates territoriais que envolvem a produção de micropolíticas que determinam o
afloramento de temas como sexualidade, gênero, raça, classe, neurodivergência e pertencimento, posicionando a
escola como espaço de conflitos, exclusões e (re)invenções. Nesse sentido, não estamos falando apenas de um drama
ficcional, mas de um artefato cujo texto cultural “exerce pedagogia quando se dá a ver conduzindo: ensinando formas
de sentir, perceber, significar e compor com as coisas de seu tempo” (Maknamara, 2025, p. 15), em cenário de disputas
identitárias, performatividades e partilha de afetos.
Assumimos que o mapa do sexo se comporta como linha de fuga, partindo de uma cartografia de intensidades que
vaza, que escorre e escapa ao controle do currículo hegemônico. O que antes era um desenho da expressão
adolescente, agora passa a representar o caos escandaloso da moral e da virtude. Amerie, após a descoberta do mapa
pela gestão da escola, é abandonada por Harper e passa a ser o único alvo das punições, apresentada como única
responsável, rotulada, marginalizada pelos próprios colegas. Nesse contexto, a micropolítica pode corresponder à forma
como “reproduzimos (ou não) os modos de subjetividade dominante” (Guattari y Rolnik, 1996, p. 133). Nesse caso,
alimenta-se a produção de um microfascismo que faz do desejo algo que não é bom, que tende a reproduzir e reforçar
microformas de opressão ao invés de resistências criativas. Os/as colegas de Amerie, ao descobrirem suas atividades
sexuais estampadas na parede aos olhos de todos/as, empreendem algo semelhante àquele movimento descrito por
Guattari e Rolnik (1996, p. 54): “[...] um movimento completamente recuperado, que se encontra em implosão, correndo
o risco de cair em microfascismos”, que se vale do desejo em uma lógica autoritária, reproduzindo poderes hierárquicos
e reacionários.
Observamos que, nesse momento, a escola
Hartley High
- cenário onde se desenrolam os conflitos, amizades, disputas,
bem como as micropolíticas relacionadas ao mundo juvenil - é representada na narrativa seriada como uma instituição
normativa, a partir de relações de poder que se materializam com práticas de suspensões daqueles que fogem às
regras. No entanto, aprendemos com Foucault (2025, p. 104) que “onde há poder, há resistência”, como evidenciado
nas micropolíticas estudantis tensionando as macropolíticas escolares no artefato analisado. Um embate que parte de
linhas constitutivas de um outro mapa, que abre espaço para narrativas e discursos que permitam que sujeitos em
dissidências saiam de suas gaiolas rumo a outros modos mais abertos de existência.
Este estudo analítico se inscreve em uma perspectiva pós-crítica e cartográfica, pois compreende a pesquisa como
processo de tradução, deslocamento e (re)invenção de sentidos e não como uma procura por verdades fixas. Optamos
pela cartografia a partir da perspectiva de Deleuze e Guattari (1995), por nos permitir delinear movimentos
micropolíticos do desejo a partir do conceito de Guattari e Rolnik (1996), com ênfase em narrativas marginais,
dissidentes, obscurecidas pela normatividade hegemônica do espaço escolar.
Nesse sentido, partimos de um exercício cartográfico que não se limita à descrição de fatos, mas se lança a mapear
fluxos, linhas duras, linhas de fuga e a infinidade de devires que atravessam o cotidiano da escola. Ele acontece através
de “um processo movediço, instável, que demanda um procedimento de criação ininterrupta, um ‘estar’ no processo:
tornar-se um/a pesquisador/a implicado/a, compor junto ao cenário que investiga, juntando os pedaços para dar sentido
ao turbilhão de acontecimentos” (Gurgel y Maknamara, 2022, p. 9). Nesse contexto, cartografar é “uma figura sinuosa,
que se adapta aos acidentes do terreno, uma figura do desvio, do rodeio, da divagação, da extravagância, da
exploração” (Oliveira y Paraíso, 2012, p. 163), que “lida com matérias relativas à vida, à subjetividade, algo que é
simultaneamente singular e coletivo” (Scherer y Grisci, 2022, p. 2).