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JULIO 2026 NOVIEMBRE 2026
/ ISSN 2408-4573 / DOSSIER TEMÁTICO
Heartbreak high: micropolíticas de resistências e
(re)invenções em práticas educativas
Heartbreak high: micropolíticas de resistencias y (re)invenciones en prácticas educativas
Heartbreak High: Micropolitics of Resistance and (Re)Inventions in Educational Practices
DA SILVA, Renildo Franco
1
y GURGEL, Evanilson
2
Da Silva, R. F. y Gurgel, E. (2026). Heartbreak high: micropolíticas de resistências e (re)invenções em práticas educativas. RELAPAE, (24),
pp. 107-119.
Resumo
O presente artigo tem como objetivo analisar as micropolíticas do desejo no contexto escolar a partir da narrativa
midiática seriada Heartbreak High, tomando como referência teórica autores como Guattari e Rolnik (1996), Butler
(2008), Louro (2001) e Foucault (2006). O estudo analítico propõe uma análise das trajetórias de personagens que
atravessam o espaço escolar, evidenciando como os processos de subjetivação se constituem em disputas entre
disciplinamento e resistência. Para tanto, adotou-se uma metodologia cartográfica que privilegia narrativas e
performatividades juvenis dissidentes, considerando o artefato cultural em questão como um texto pedagógico. A
análise evidencia que personagens como Amerie, Darren, Malakai, Quinni e Dusty apresentam instabilidade da
heterossexualidade hegemônica e a pluralidade das masculinidades e sexualidades. Além disso, evidenciamos como a
docência, na figura de personagens como Voss, Jojo Obah e Woodsy, tensionam práticas autoritárias que buscam
disciplinar os corpos e mentes dos/as discente a partir de pedagogias do afeto e do acolhimento que possibilitam linhas
de fuga e invenções subjetivas. Este estudo analítico reforça a necessidade de compreender o currículo para além de
sua dimensão normativa, reconhecendo-o como campo atravessado por narrativas, desejos e diferenças que abrem
caminhos para experiências mais plurais.
Palavras-chave: micropolítica, educação, subjetivação, performatividade, artefatos culturais
Resumen
El presente artículo tiene como objetivo analizar las micropolíticas del deseo en el contexto escolar a partir de la narrativa
mediática seriada Heartbreak High, tomando como referencia teórica a autores como Félix Guattari y Suely Rolnik
(1996), Judith Butler (2008), Guacira Lopes Louro (2001) y Michel Foucault (2006). El estudio analítico propone un
análisis de las trayectorias de personajes que atraviesan el espacio escolar, evidenciando cómo los procesos de
subjetivación se constituyen en disputas entre disciplinamiento y resistencia. Para ello, se adoptó una metodología
cartográfica que privilegia narrativas y performatividades juveniles disidentes, considerando el artefacto cultural en
cuestión como un texto pedagógico. El análisis evidencia que personajes como Amerie, Darren, Malakai, Quinni y Dusty
presentan la inestabilidad de la heterosexualidad hegemónica y la pluralidad de las masculinidades y sexualidades.
Además, evidenciamos cómo la docencia, en la figura de personajes como Voss, Jojo Obah y Woodsy, tensiona prácticas
autoritarias que buscan disciplinar los cuerpos y las mentes de los/as estudiantes a partir de pedagogías del afecto y
de la acogida que posibilitan líneas de fuga e invenciones subjetivas. Este estudio analítico refuerza la necesidad de
comprender el currículo más allá de su dimensión normativa, reconociéndolo como un campo atravesado por narrativas,
deseos y diferencias que abren caminos para experiencias más plurales.
Palabras clave: micropolítica, educación, subjetivación, performatividad, narrativas culturales
Abstract
1
Universidade Federal Rural do Semi-Árido - Universidade do Estado do Rio Grande do Norte - Instituto Federal do Rio Grande do Norte, Brasil /
renildo.franco@gmail.com / https://orcid.org/0000-0002-5657-4850
2
Universidade Federal Rural do Semi-Árido - Universidade do Estado do Rio Grande do Norte - Instituto Federal do Rio Grande do Norte, Brasil /
evanilson.gurgel@ufersa.edu.br / https://orcid.org/0000-0003-2018-767X
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This article aims to analyze the micropolitics of desire in the school context through the serialized media narrative
Heartbreak High, drawing on the theoretical contributions of authors such as Félix Guattari and Suely Rolnik (1996),
Judith Butler (2008), Guacira Lopes Louro (2001), and Michel Foucault (2006). The analytical study proposes an
examination of the trajectories of characters who move through the school space, highlighting how processes of
subjectivation are constituted through disputes between discipline and resistance. To this end, a cartographic
methodology was adopted, privileging dissident youth narratives and performativities, considering the cultural artifact
in question as a pedagogical text. The analysis shows that characters such as Amerie, Darren, Malakai, Quinni, and
Dusty reveal the instability of hegemonic heterosexuality and the plurality of masculinities and sexualities. Furthermore,
we demonstrate how teaching practices, embodied by characters such as Voss, Jojo Obah, and Woodsy, challenge
authoritarian practices that seek to discipline students’ bodies and minds through pedagogies of affection and care that
enable lines of flight and subjective inventions. This analytical study reinforces the need to understand the curriculum
beyond its normative dimension, recognizing it as a field crossed by narratives, desires, and differences that open
pathways for more plural experiences.
Keywords: micropolitics, education, subjectivation, performativity, cultural narratives
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Um mapa que se abre ao desejo
Um mapa. Tudo começa com o mapeamento de desejos e subversões em um espaço escondido dentro da escola. No
momento, não estamos falando de um mapa como uma cartografia “a la Deleuze e Guattari” (1995) que trata de linhas
diversas, que é aberto e desmontável, que pode ser ampliado, modificado, refeito, conectável em todas as suas
dimensões sem hierarquia fixas, que não tem começo nem fim e que age como um rizoma. Falamos, de uma tentativa
de transgressão da normatividade, que parte de um drama ficcional. Um mapa transgressor, desenhado por alunas,
que se empenha em não “permitir uma legitimação ulterior das normas de gênero sintonizadas com a dominação
masculina, a heterossexualização compulsória e a configuração de hierarquias sociais [...]” (Junqueira, 2018, p. 456).
Amerie e Harper são duas adolescentes que estudam na escola
Hartley High
, situada na trama da narrativa seriada
Heartbreak High
. Cansadas de seguir as lições de moral e virtude empregadas pela escola, elas constroem um “mapa
da sexualidade” que detalha “micropolítica
s
que, nesse contexto, se referem às forças do desejo que atravessam o
cotidiano, moldando subjetividades em gestos, afetos e relações, diferentemente das “Macropolíticas”, que atuam nas
grandes estruturas, operando de forma a enquadrar os sujeitos aos ditames do pensamento hegemônico (Guattari y
Rolnik, 1996). Esse mapa da sexualidade representa diferentes formas de dizer e viver experiências que, ao mesmo
tempo, denunciam como a escola, por vezes, é capaz de mobilizar suas normas e punições visando o enquadramento
de suas sexualidades, negando a pluralidade do outro.
Consideramos, corroborando com Guilherme (2018, p, 15), que essas ações reforçam um totalitarismo caracterizado
pela “tentativa de anular a pluralidade, essencial para a existência da vida política, no sentido de criar um mundo de
iguais”. E o que compreende essa pretensa ideia de igualdade, que por vezes insiste em ser decalcada a nos mapas
existenciais? Cremos que esse mapa transgressor é precisamente contrário a isso: à ideia de que a sociedade toda
seria como um único indivíduo.
Assim começa a narrativa midiática seriada australiana
Heartbreak High
, lançada em 2022 pelo
streaming
Netflix. Um
reboot
3
da versão original dos anos noventa. Propomos, no presente artigo, um estudo analítico em que esse artefato
cultural é problematizado a partir de discussões acerca das micropolíticas que permeiam as relações entre os/as
discentes e práticas educativas nas relações de poder que se configuram no espaço escolar envolvendo corpos -
professores/as, gestores/as e alunos/as - que transitam e se interseccionam com suas culturas, modos de vida, gêneros
e sexualidades. Essas relações estão para além da pluralidade, e consideram fundamental reconhecer que diferentes
práticas de performatização das sexualidades “estabelecem relações hierárquicas entre si, em recorrentes disputas
pela hegemonia nas relações de gênero, estabelecendo-se constantes relações de poder” (Silva, 2019, p. 30). Tomaz
Tadeu da Silva (2024, p. 134) nos diz que o artefato cultural é “como o resultado de um processo de construção social”.
Ou seja, “como qualquer produto cultural passível de pedagogização”, que exerce “pedagogia quando se a ver
conduzindo: ensinando formas de sentir, perceber, significar e compor com as coisas de seu tempo” (Maknamara,
2025, p. 15).
Ao refletirmos a escola e as micropolíticas que se materializam nesse território, através de uma narrativa midiática
seriada, o fazemos não em uma dimensão do lazer ou da fruição descompromissada, mas sim com intuito pedagógico,
como reforçam os autores. Nesse sentido, assumimos a perspectiva, a partir do campo dos Estudos Culturais em
Educação, que todo artefato cultural possui um currículo para além daquele dito oficial, implementado pela escola. Silva
(2024, p. 134) afirma que “a partir dos Estudos Culturais, podemos ver o conhecimento e o currículo como campos
culturais, como campos sujeitos à disputa e à interpretação, nos quais os diferentes grupos tentam estabelecer sua
hegemonia”. Desse modo, há uma pedagogia cultural que se apresenta e que diz respeito
à capacidade de ensinar e vontade de fazer aprender de um artefato cultural, não pelo suposto aditivo
instrucional e didático dele, mas por suas formas de influenciar a cultura e, assim, nossas vidas. Pedagogia
cultural diz respeito à pedagogia praticada por qualquer artefato cultural que não a escola, ainda que possa ou
não utilizar-se de elementos da forma escolar de socialização. Pedagogias culturais procuram estimular
sensações, favorecer percepções e proporcionar aprendizagens nos moldes de uma cultura, concorrendo para
processos de subjetivação (Maknamara, 2025, p. 183).
3
Termo usado para uma nova versão de uma obra de ficção (filme, série, jogo) que recomeça a história de um universo existente,
desconsiderando a cronologia anterior, mudando o enredo, personagens ou regras, e estabelecendo um novo cânone.
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Sendo assim, acreditamos que a discussão que aqui flui a partir de uma narrativa seriada midiática, procura intensificar
tais sensações em sua audiência, tendo a cultura como facilitadora de aprendizagens. O mapa que introduz as tensões
que permeiam a série nos inspirou a cartografar algumas narrativas de forma a questionar a educação para além das
políticas oficiais impostas nas escolas. Desse modo, objetivamos analisar, a partir da narrativa midiática
Heartbreak
High
, as micropolíticas do desejo que atravessam as práticas educativas escolares, com vistas a responder: em que
medida essas micropolíticas contribuem para problematizar processos de subjetivação, resistência e (re)invenção no
espaço escolar?
Para isso, elencamos alguns objetivos específicos, a saber: cartografar as linhas constitutivas das narrativas e
performatividades dos personagens como expressões de micropolíticas que tensionam normas e macropolíticas
escolares; investigar como práticas de performatividade de gênero e sexualidade desestabilizam representações
hegemônicas e produzem linhas de fuga no contexto da escola; compreender as contribuições da docência e das
práticas educativas nesse artefato, evidenciando disputas entre disciplinamento, resistência e acolhimento como
representação do campo educacional contemporâneo. Partimos de uma metodologia ancorada nos Estudos Culturais e
nas teorias pós-críticas. Marlucy Paraíso (2025) apresenta que as teorias pós-críticas constituem um campo plural e
heterogêneo de pensamento, sustentado por diferentes matrizes teóricas, especialmente vinculadas ao pós-
estruturalismo, às filosofias da diferença e a perspectivas culturais, sociais, políticas, históricas e linguísticas. Nesse
conjunto, inserem-se abordagens como o multiculturalismo, os estudos culturais, os estudos pós-coloniais, os estudos
étnico-raciais, os estudos feministas e de gênero, a teoria
queer
e o pensamento da diferença. Denominadas pós-
críticas, essas teorizações ampliam os modos de compreender o currículo ao introduzirem novos conceitos, categorias
e problematizações, deslocando-se, em muitos casos, das bases explicativas que marcaram as teorias críticas
tradicionais.
Esse mapa da sexualidade apresenta marcas significativas da vivência sexual de estudantes, destacando notas sobre
as experiências sexuais por eles/as vividas. Ele não nasce como política oficial da escola, ele se proclama como uma
cartografia das micropolíticas do desejo da adolescência, buscando dar visibilidade às práticas e aos segredos que não
são reconhecidos pela escola, mas que tensionam atravessamentos em um cotidiano marcado por embates constantes
das relações de poder.
Quando falamos em micropolítica do desejo, nos pautamos em Félix Guattari e Suely Rolnik (1996), apontando-a como
a capacidade de inventar modos de vida singulares que escapam da produção em série do poder hegemônico normativo.
Destacamos que esse processo de singularização opera como devir, sujeitos que se apresentam por meio de
transformações inacabadas. Falamos de uma singularização que “coincida com um desejo, com um gosto de viver,
com uma vontade de construir o mundo no qual nos encontramos, com a instauração de dispositivos para mudar os
tipos de sociedade, os tipos de valores que não são nossos” (Guattari y Rolnik, 1996, p. 17).
Ao desenhar esse mapa, as alunas acabam projetando a imagem de um currículo que se produz paralelamente ao
currículo normativo da escola, isto é, um currículo que recusa narrativas hegemônicas e fraudulentas de totalidade e
fim (Paraíso, 2010), evidenciando que esse território educacional não se configura apenas como ambiente transmissor
de conteúdos, mas como espaço de afetividade, de subjetividades, de singularidades e de performatividades das
sexualidades. Um currículo que “abre espaço para compreendermos a vida e, por extensão dela, a experiência curricular
como um percurso (trans)formativo, descontínuo e inacabado, em que o sujeito se refaz em constância a partir de seus
des(encontros) e atravessamentos” (Paraíso, 2010, p. 588). Nesse contexto, o currículo escolar passa a ser significado
como “um território de multiplicidades de todos os tipos, de disseminação de saberes diversos, de encontros ‘variados’,
de composições ‘caóticas’, de disseminações ‘perigosas’, de contágios ‘incontroláveis’, de acontecimentos
‘insuspeitados’” (Paraíso, 2010, p. 588), de mapas sexuais estampados, às escondidas, nas paredes.
De início apresentamos uma introdução intitulada
Um mapa que se abre ao desejo
seguida da metodologia, a qual
chamamos de
Uma cartografia de mapas (in)desejados
, fundamentada na cartografia de micropolíticas, articulando
conceitos de autores/as pós-críticos/as. Por conseguinte, na seção intitulada
Do molar ao molecular: linhas de fuga e a
estética do existir
, discutimos os conceitos de micropolítica e macropolítica, evidenciando como fluxos de desejo
atravessam práticas escolares.
Ulterior a isso, na seção
Performatividades em cena: gênero, sexualidade e identidades em disputa
, analisamos a
narrativa midiática seriada
Heartbreak High
como texto pedagógico que expõe performatividades dissidentes. Logo
depois, na seção
Docências em confronto: entre disciplinamentos e pedagogias do afeto
, contrastamos práticas
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docentes normativas e autoritárias com pedagogias de acolhimento e afeto. E, por fim, nas considerações em aberto
intituladas
A escola como campo de (re)invenção e pluralidade,
apresentamos os achados deste estudo analítico com
ramificações para outras possibilidades de análise.
Uma cartografia de mapas (in)desejados
Heartbreak High
é uma narrativa midiática seriada que apresenta trajetórias de personagens, em um mundo fictício, na
escola
Hartley High
, localizada em Sydney, Austrália. As linhas que delineiam essa narrativa se ramificam a partir do
escândalo do mapa do sexo, um mural construído às escondidas e que expõe relacionamentos íntimos dos estudantes.
A ideia surge como uma brincadeira entre amigas - Amerie e Harper - motivada pela curiosidade juvenil em explorar e
compartilhar informações sobre as experiências afetivas e sexuais dos/as colegas da escola. Esse mapa nasce como
estratégia de autoafirmação e pertencimento naquele universo adolescente. Entretanto, quando o documento se torna
público, transforma-se em instrumento de exposição, vigilância e julgamento, desencadeando conflitos que atravessam
o espaço escolar.
Tensões eclodem e isso causa embates territoriais que envolvem a produção de micropolíticas que determinam o
afloramento de temas como sexualidade, gênero, raça, classe, neurodivergência e pertencimento, posicionando a
escola como espaço de conflitos, exclusões e (re)invenções. Nesse sentido, não estamos falando apenas de um drama
ficcional, mas de um artefato cujo texto cultural “exerce pedagogia quando se dá a ver conduzindo: ensinando formas
de sentir, perceber, significar e compor com as coisas de seu tempo” (Maknamara, 2025, p. 15), em cenário de disputas
identitárias, performatividades e partilha de afetos.
Assumimos que o mapa do sexo se comporta como linha de fuga, partindo de uma cartografia de intensidades que
vaza, que escorre e escapa ao controle do currículo hegemônico. O que antes era um desenho da expressão
adolescente, agora passa a representar o caos escandaloso da moral e da virtude. Amerie, após a descoberta do mapa
pela gestão da escola, é abandonada por Harper e passa a ser o único alvo das punições, apresentada como única
responsável, rotulada, marginalizada pelos próprios colegas. Nesse contexto, a micropolítica pode corresponder à forma
como “reproduzimos (ou não) os modos de subjetividade dominante” (Guattari y Rolnik, 1996, p. 133). Nesse caso,
alimenta-se a produção de um microfascismo que faz do desejo algo que não é bom, que tende a reproduzir e reforçar
microformas de opressão ao invés de resistências criativas. Os/as colegas de Amerie, ao descobrirem suas atividades
sexuais estampadas na parede aos olhos de todos/as, empreendem algo semelhante àquele movimento descrito por
Guattari e Rolnik (1996, p. 54): “[...] um movimento completamente recuperado, que se encontra em implosão, correndo
o risco de cair em microfascismos”, que se vale do desejo em uma lógica autoritária, reproduzindo poderes hierárquicos
e reacionários.
Observamos que, nesse momento, a escola
Hartley High
- cenário onde se desenrolam os conflitos, amizades, disputas,
bem como as micropolíticas relacionadas ao mundo juvenil - é representada na narrativa seriada como uma instituição
normativa, a partir de relações de poder que se materializam com práticas de suspensões daqueles que fogem às
regras. No entanto, aprendemos com Foucault (2025, p. 104) que “onde poder, há resistência”, como evidenciado
nas micropolíticas estudantis tensionando as macropolíticas escolares no artefato analisado. Um embate que parte de
linhas constitutivas de um outro mapa, que abre espaço para narrativas e discursos que permitam que sujeitos em
dissidências saiam de suas gaiolas rumo a outros modos mais abertos de existência.
Este estudo analítico se inscreve em uma perspectiva pós-crítica e cartográfica, pois compreende a pesquisa como
processo de tradução, deslocamento e (re)invenção de sentidos e não como uma procura por verdades fixas. Optamos
pela cartografia a partir da perspectiva de Deleuze e Guattari (1995), por nos permitir delinear movimentos
micropolíticos do desejo a partir do conceito de Guattari e Rolnik (1996), com ênfase em narrativas marginais,
dissidentes, obscurecidas pela normatividade hegemônica do espaço escolar.
Nesse sentido, partimos de um exercício cartográfico que não se limita à descrição de fatos, mas se lança a mapear
fluxos, linhas duras, linhas de fuga e a infinidade de devires que atravessam o cotidiano da escola. Ele acontece através
de “um processo movediço, instável, que demanda um procedimento de criação ininterrupta, um ‘estar’ no processo:
tornar-se um/a pesquisador/a implicado/a, compor junto ao cenário que investiga, juntando os pedaços para dar sentido
ao turbilhão de acontecimentos” (Gurgel y Maknamara, 2022, p. 9). Nesse contexto, cartografar é “uma figura sinuosa,
que se adapta aos acidentes do terreno, uma figura do desvio, do rodeio, da divagação, da extravagância, da
exploração” (Oliveira y Paraíso, 2012, p. 163), que “lida com matérias relativas à vida, à subjetividade, algo que é
simultaneamente singular e coletivo” (Scherer y Grisci, 2022, p. 2).
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Desse modo, apresentamos o desejo como produção de singularidades e subjetivação, a micropolítica como campo de
análise onde os desejos transgridem leis e normas e a cartografia como método de investigação. Analisamos as
micropolíticas do desejo a partir de um artefato cultural que apresenta a escola como espaço de produção e regulação
de gênero e sexualidade, com o intuito de compreender a transgressão como gesto não político, mas também
pedagógico. Nesse sentido, partimos das lentes que os Estudos Culturais nos proporcionam, procurando articular três
movimentos analíticos, a saber: cartografar a narrativa midiática
Heartbreak High
, que encena micropolíticas do desejo;
acompanhar processos de performatividade de alguns personagens observando como - estudantes e professores/as -
repetem, deslocam ou transgridem normas de gênero e sexualidade e, por fim, identificar as linhas de fuga que
representam momentos em que práticas dissidentes desestabilizam discursos normativos e abrem espaços para novos
modos de existir e de ensinar na escola.
Do molar ao molecular: linhas de fuga e a estética do existir
Deleuze e Guattari (1996) nos dizem que as linhas de fuga não significam escapar do mundo, mas produzir fissuras nos
sistemas que buscam organizar e controlar a vida, fazendo emergir brechas mesmo em estruturas rígidas e normativas.
São movimentos imanentes ao próprio campo social, pelos quais se inventam outras possibilidades de existência,
pensamento e ação frente às formas de poder que tentam capturar os corpos e os modos de vida. Nesse sentido, fugir
não corresponde a abandonar a luta, mas criar forças, estratégias e modos de resistência capazes de deslocar aquilo
que está instituído. Embora representem perigo para as organizações sociais estabilizadas, as linhas de fuga o
inseparáveis da própria dinâmica da vida social, pois é nelas que se tornam possíveis os deslocamentos, as
transformações e a criação do novo.
Dito isto, na obra
Micropolítica: cartografias do desejo
, Guattari e Rolnik (1996) apresentam uma formulação dos
conceitos de micropolítica e macropolítica, comparando esses dois termos aos vocábulos molecular e molar.
Reforçamos que, segundo Guattari e Rolnik (1996), uma perspectiva “molar” corresponde ao plano das grandes
estruturas sociais, que fixam identidades em categorias estáveis e normativas. Ela representa, portanto, o campo das
Macropolíticas, enquanto a perspectiva “molecular” está ligada aos fluxos do desejo, aos afetos e devires que
atravessam o cotidiano de forma instável e inventiva. Para ambos/as, a micropolítica é uma tentativa de agenciamento
das coisas para que se evite a “reitificação de um devir homossexual individual” (Guattari y Rolnik, 1996, p. 79). Essa
micropolítica (molecular) “consiste em criar um agenciamento que permita, ao contrário, que esses processos se
apoiem uns aos outros de modo a intensificar-se” (Guattari y Rolnik, 1996, p. 79). Nesse sentido, ela tensiona para a
existência de devires que provocam processos de subjetivação e singularização dos sujeitos, atuando de forma intensa
nas relações diárias.
Com isso, é possível tanto emergir potências de (re)invenção como riscos de microfascismos, que se configuram como
pequenas formas de autoritarismo, conservadorismo e opressão reproduzidos nas relações familiares, escolares,
cotidianas (Guattari y Rolnik, 1996). No plano da macropolítica, uma relação com as estruturas visíveis de
representação social que estão representadas pelas leis, discursos, política, religião, etc. É um plano que opera para
normatizar sujeitos e territórios de forma rígida, “em que os equipamentos coletivos têm a função de teleguiar, de cifrar
comportamentos, pensamentos e sistemas de valores para garantir a produção da subjetividade capitalística, que nos
atravessa com a falácia da pseudopersonalização” (Faria, 2012, p. 119).
A micropolítica e a macropolítica são planos que não se opõem, mas coexistem e se implicam mutuamente. Podemos
dizer que um mesmo grupo de sujeitos pode praticar relações de poder a nível molar e, ao mesmo tempo, ser reacionário
e transgressor a nível molecular. O que faz a análise no âmbito das micropolíticas necessária é a percepção de como
os modos de subjetivação são produzidos e engendrados nas tramas do desejo, sugerindo movimentos de escape e
intensificando os dispositivos de poder. O molar (macropolítico) captura e organiza, enquanto o molecular (micropolítico)
pode produzir linhas de fuga e singularizações. No entanto, é também no nível molecular (micropolítico) que surgem os
“microfascismos cotidianos” (Gurgel, 2025), ou seja, pequenas práticas de opressão e exclusão como olhares, fofocas
e pequenas violências simbólicas que atuam como uma “espécie de pílulas de horror que sorvemos, a cada dia, para
curar em nós aquilo que nos enoja no Outro” (Gurgel, 2025, p. 51). Ou, como disse Foucault no prefácio da obra
Anti-
Oedipus: Capitalism and Schizophrenia
de Deleuze e Guattari (1997, p. 2), intitulado
Introdução a uma vida não-fascista
,
esses microfascismos representam o fascismo que “está em nós todos, que martela nossos espíritos e nossas condutas
cotidianas, o fascismo que nos faz amar o poder, desejar esta coisa que nos domina e nos explora”.
Performatividades em cena: gênero, sexualidade e identidades em disputa
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Para Judith Butler (2019) a performatividade de gênero não deve ser compreendida como uma ação isolada ou resultado
de uma escolha puramente individual, mas como um processo contínuo de repetição de normas e discursos sociais. É
por meio dessa repetição reiterada que os discursos produzem efeitos de verdade sobre os corpos, constituindo aquilo
que passam a nomear como natural. Nessa perspectiva, as normas regulatórias relacionadas ao sexo e ao gênero atuam
performativamente na materialização dos corpos e das diferenças sexuais, consolidando padrões que sustentam a
lógica heterossexual como norma social.
Iniciamos essa discussão a partir de um mapa, mais especificamente de um mapa do sexo, que apresenta relações
íntimas de estudantes dentro dos muros da escola. O mapa não representa apenas narrativas de histórias
marginalizadas pela normatividade, mas cria e agencia formas de transgressão como meio de resistência ao
enquadramento de certas formas de existir. Mas, como performatizam os corpos que compõem a dramaturgia de
Heartbreak High
? De que forma eles se apresentam?
Para nós, essa apresentação vem não somente em gestos, mas também e, sobretudo, nas vivências do cotidiano escolar
dos/as estudantes. É nesse espaço-tempo que questões de sexualidade e gênero atravessam as vidas que ali povoam.
O artefato em questão põe como evidência a circulação do desejo, e faz isso de forma tensa entre as normas impostas
pela escola e as linhas de fuga que atuam para dar espaço às sexualidades reprimidas, abjetas e que se configuram
como uma cartografia do desejo.
No quadro abaixo, apresentamos uma análise abordando alguns/algumas personagens que conduzem a questões
micropolíticas que transitam na trama.
Tabela 1. Análise das micropolíticas na narrativa seriada midiática Heartbreak High
Fonte: Elaboração dos autores (2026)
As narrativas exploradas no quadro representam micropolíticas que mostram como a escola, por vezes, é capaz de
negociar a moralidade, a punição e o desejo em seu cotidiano. Percebemos em Amerie o atravessamento de questões
que incorporam a amizade, a sexualidade e o pertencimento. Ela representa a transgressão como ato político e passa
a enfrentar, a partir disso, punições que partem da escola e de amigos. Nesse contexto, busca reinventar sua presença
na
Hartley High
. Desse modo, começa a aproximar-se de personagens marginalizados - como Darren e Quinni -
formando uma nova rede de afetos. Essa escolha não é apenas um gesto de amizade, mas uma tática de sobrevivência,
passando a construir outras formas de pertencimento. No contexto micropolítico, Amerie, enquanto aluna, se vê incapaz
de alterar as regras molares da instituição - representada, por exemplo, nos atos punitivos da gestão e passa a recorrer
Personagem / Elemento
Narrativa
Questões micropolíticas
Chaves de leitura
Amerie (protagonista,
atravessa questões de
amizade, sexualidade e
pertencimento)
Após o mapa sexual
exposto, enfrenta
punições institucionais
Mostra como a escola
negocia moralidade,
punição e desejo no
cotidiano
Táticas de sobrevivência e
resistência
Darren (estudante
queer
)
Sofre bullying, mas
também afirma sua
identidade com humor e
irreverência
Micropolítica da existência
queer
no espaço escolar
Performatividade de
gênero; identidade como
processo narrativo
Malakai (Jovem atleta,
inserido na lógica da
masculinidade
hegemônica)
Heterossexualidade
presumida, mas vivida de
forma menos rígida
Tensiona o modelo do
“macho atleta”; mostra
afetividade e
vulnerabilidade
Reinventa a masculinidade
para além da virilidade
esportiva; recusa certos
estereótipos
Quinni (estudante autista
queer
)
Negocia amizade,
romance e
neurodivergência
Micropolítica da
inclusão/exclusão
interseccionalidade
Dusty - símbolo de
masculinidade e
heterossexualidade
hegemônica
Aparente
heterossexualidade
Encena a instabilidade da
norma heterossexual
Apresenta fissuras na
heterossexualidade
compulsória
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a práticas inventivas que garantam sua permanência e minimizem sua exclusão. No âmbito da micropolítica do desejo,
em vez de sucumbir à normatividade, cria linhas de fuga ao buscar novas alianças e narrativas de si.
Darren é um estudante não-binário. É expansivo, expressivo e confiante. Costuma vestir roupas chamativas, coloridas,
que mesclam elementos considerados masculinos e femininos, além de maquiagem, acessórios e penteados ousados.
Tem um humor afiado e um jeito irreverente de lidar com colegas e professores. Por ser homossexual sofre bullying,
mas não teme performatizar sua identidade com humor e irreverência (Butler, 2008). O vemos como o maior símbolo
de micropolítica de resistência no artefato em análise. Ele representa a existência
queer
que impõe presença e
performatividade, pois “conhece a si” e entende sua existência (Foucault, 2006). Por esse motivo, consegue perceber
na amizade uma forma de ajudar outros sujeitos a seguir em suas lutas.
Seu corpo, seu humor e a sua postura política atuam como prática performativa (Butler, 2008), desestabilizando as
regras de gênero e sexualidade. Nesse contexto, o personagem tem na diferença uma forma de existir que produz
modos de vida transgredindo normas e criando linhas de fuga, tornando visível o que está silenciado. Esse gesto
performativo não é apenas estético, mas uma forma de afirmar sua singularidade diante de colegas que constantemente
o questionam ou hostilizam. No contexto das micropolíticas, ao se apresentar de forma dissidente, Darren reforça sua
singularização, recusando a normatividade homogênea imposta pela escola. Seu gesto abre caminhos para novas
formas de vida que desestabilizam a ordem molar da instituição que parte sempre de concepções binárias, disciplinares
e normalizadoras. Sua estética subversiva expõe a artificialidade da norma como ato pedagógico e político, pois ao
transgredir, ele ensina, desloca e produz aprendizagens não previstas pelo currículo oficial da escola (Louro, 2001).
Malakai é um adolescente que faz parte do time de basquete da escola, é carismático, atlético e popular. Geralmente
aparece com roupas esportivas, uniformes do time ou camisetas casuais, transmitindo a imagem do atleta típico
escolar. Ele representa a juventude que lida com as expectativas e ditames da masculinidade hegemônica, “entendida
como um padrão de práticas (i.e., coisas feitas, não apenas uma série de expectativas de papéis ou uma identidade)
que possibilitou que a dominação dos homens sobre as mulheres continuasse” (Connell e Messerschmidt, 2013, p.
245). Inserido em territórios de masculinidade e virilidade heteronormativa, precisa silenciar sua sexualidade dissidente,
mesmo que suas escolhas afetivas e seu modo de se relacionar com os outros evidenciem certos deslocamentos. Ele
se sente obrigado a incorporar aquela “forma mais honrada de ser um homem” descrita certa vez por Connell e
Messerschmidt (2013, p. 245) como um modo que “exige que todos os outros homens se posicionem em relação a ela
e legitima ideologicamente a subordinação global das mulheres aos homens”.
vários momentos em que a narrativa reforça o contraste das ações de Malakai com a imagem de masculinidade
hegemônica, pautada sobretudo no culto ao corpo e ao comportamento atlético. Ao se abrir emocionalmente com
Amerie, compartilhando suas dores, dúvidas e fragilidades, vemos a dureza associada ao atleta, ao corpo forte e
competitivo, dar lugar a uma masculinidade vulnerável e que se permite afetiva. Ele não performatiza a virilidade
comumente esperada de um líder esportivo, mas apresenta a complexidade de sua subjetividade, recusando o silêncio
e a rigidez impostos pelo estereótipo. No contexto micropolítico, Malakai performatiza uma masculinidade que se
desloca do
script
4
tradicional, mostrando cuidado e afeto, uma masculinidade pode ser reconfigurada. Esse gesto, no
contexto do desejo, abre brechas no imaginário esportivo e escolar, instaurando linhas de fuga frente ao modelo
normativo da masculinidade hegemônica. Ao demonstrar a sua vulnerabilidade, o personagem transgride o currículo
que reitera, naturaliza e demanda um homem forte, disciplinado e presumidamente heterossexual, ensinando a
audiência deste artefato que masculinidades podem ser plurais.
Quinni é uma estudante autista, detalhista, sensível e com forte senso de autenticidade. Sua forma de vestir reflete
criatividade e conforto, com peças coloridas, estampas excêntricas e acessórios que marcam sua singularidade. Nesse
contexto, percebemos que negociação nas relações de amizade construída entre a personagem e seus colegas.
Trata-se de amizades semelhantes ao que enuncia Pellizzaro (2015, p. 121-122) que lançam “o desafio para que novas
formas de sociabilidade sejam possíveis, novos modos de relacionamentos possam surgir para além do modelo familiar
nuclear”. Destacamos que o romance homoafetivo vivido pela personagem não aborda apenas a diversidade, pois há,
para além deste recorte, um mergulho provocador no âmbito da neurodivergência que corresponde ao espectro do
autismo.
Se partirmos da perspectiva da subjetivação e da singularização como momentos de criação de modos próprios de
existir, favorecendo o escape de modelos humanos pré-fabricados pela normatividade, essa personagem nos permite
4
Um texto que detalha diálogos e ações em filmes, peças de teatro, rádio, etc., quanto a um conjunto de instruções escritas.
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contemplar uma subjetividade minoritária, dissidente, nômade. Nesse sentido, compreendemos que o incoerente e o
corpo anômalo, seguindo a perspectiva foucaultiana (2001), entrecruza os espaços com narrativas em choque que
evidenciam a impossibilidade de um currículo totalizante, com formas “capazes de produzir rotinas, aprisionar as forças,
dividir e desanimar” (Paraíso, 2015, p. 50). Ao afirmar sua condição autista e
queer
, cria um processo de singularização,
inventando modos próprios de existir, que encarnam uma subjetividade nômade, que “tem a ver com a simultaneidade
de identidades complexas e multidimensionais” (Braidotti, 2002, p. 10), não fixada em categorias identitárias rígidas,
mas em movimento, experimentando outras formas de relação e de percepção.
Não podemos deixar de refletir o personagem Dusty, figura central no grupo dos/as estudantes populares. Costuma
vestir roupas que realçam sua posição social: uniformes bem ajustados, camisetas de marca, jaquetas e
looks
que
reforçam sua imagem de galã adolescente. Ele encarna a representação da heterossexualidade hegemônica, ou seja,
constitui-se dentro da padronização exigida pelos ditames normativos sociais. Assim, apresenta-se como imagem
popular, desejada, viril. O símbolo da sexualidade heteronormativa desejada. Um personagem que passa a ser
tensionado pela exposição de suas práticas sexuais, que vão sendo problematizadas no decorrer deste artefato cultural.
De certa forma, a narrativa de Dusty nos ensina que mesmo a heterossexualidade enquadrada na normatividade
hegemônica pode ser instável e, portanto, atravessada por micropolíticas. Após o “mapa do sexo”, os colegas
questionam seus relacionamentos, rumores sobre sua vida íntima circulam, e sua imagem de heterossexual estável se
torna frágil. A figura do macho perfeito é, então, atravessada por dúvidas e olhares de desconfiança.
O artefato em análise nos ensina, com isso, que nenhuma identidade é totalmente estável, que mesmo a
heterossexualidade hegemônica, vista como lugar de privilégio e segurança, precisa ser constantemente reiterada.
Através da narrativa de Dusty, aprendemos que a heterossexualidade hegemônica está sujeita às micropolíticas do
desejo. Nesse sentido, passamos a compreender que o desejo não é estável nem transparente, mas atravessado por
fluxos e contradições, evidenciando como essas representações são frágeis e inacabadas. O artefato em questão
também nos ensina que a descoberta da sexualidade nem sempre virá por meio de apresentações emblemáticas, mas
por gestos, olhares e silêncios, como percebemos em Dusty e Malakai; que a fluidez da homoafetividade pode se prática
de resistência e (re)invenção como nas narrativas de Darren, Quinni e Malakai; e que o entendimento de que a
masculinidade não é fixa, mas se (re)inventa todos os dias.
Docências em confronto: entre disciplinamentos e pedagogias do afeto
A trama de
Heartbreak High
traz a representação de três personagens fundamentais para compreendermos os ruídos
da micro e macropolítica no campo da docência. A escola, na narrativa midiática seriada em questão, se apresenta
como um território repleto de significações que tensionam a docência e suas múltiplas facetas. Nesse tópico propomos
uma análise das narrativas de Voss, profissional de educação física; Jojo Obah, professora encarregada de trabalhar
educação sexual junto aos/às estudantes e Woodsy, diretora da escola. São corpos que performatizam distintamente
na ação docente envolvendo normatividade, disciplina, resistência e (re)invenção nos âmbitos molares e moleculares.
Voss performatiza uma docência com base em uma pedagogia do controle e da norma. Ele busca obstruir qualquer
tentativa de despadronização da masculinidade hegemônica que prega em sua forma de ensinar. Desse modo, enfatiza
ideais de homem macho, viril, que compete e que ganha sem possibilidade de falha. Porque, com base nessa
pedagogia, homem não deve errar, sentir, chorar. O que se em sua trajetória é uma macropolítica que busca
disciplinar o corpo, levando os estudantes a uma exaustão física e mental para que se encaixem em sua perspectiva
de mundo ideal. No exercício de uma prática docente reguladora, agencia linhas duras que enquadram os/as estudantes
em modelos rígidos em que a performance é mais importante do que suas existências. Quando estabelece uma ação
pedagógica a partir de regras que inviabilizam a subjetividade e singularização dos/as educandos/as, Voss atua sob um
efeito que lança mão de mecanismos de exclusão e ridicularização repetidamente no cotidiano da escola.
Um exemplo dessas linhas duras está no episódio em que em uma das aulas de Educação Física, Voss conduz os
estudantes em atividades extenuantes de condicionamento físico, envolvendo flexões, corridas, exercícios de
resistência. Ele insiste em levar os corpos ao limite, ridicularizando os que não acompanham o ritmo e elogiando apenas
aqueles que encarnam a força e a performance atlética. O professor se apoia em um discurso da masculinidade pautada
na força física, atravessado por enunciados que reforçam o significado de que apenas os mais fortes, resistentes e
obedientes merecem reconhecimento. Consideramos essa situação exemplar do poder disciplinar, em que o corpo é
treinado e vigiado para se ajustar a padrões normativos (Foucault, 1987). Voss busca criar corpos moldados por um
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ideal de virilidade. Nesse sentido, opera a nível molar uma imposição de modelo único de corpo e masculinidade, mas
também a nível molecular, pois nas microrrelações de exaustão e ridicularização germinam microfascismos cotidianos.
A atuação de Voss como movimento pedagógico reforça a performatividade da masculinidade hegemônica, que se
sustenta pela repetição de gestos através da força, agressividade, resistência e pela exclusão dos que não se
enquadram. Vemos em ação um currículo em que gênero e sexualidade são regulados pelo corpo, em que os meninos
são empurrados ao desempenho, enquanto as diferenças são invisibilizadas ou ridicularizadas.
A diretora Woodsy não foge a esse modelo de educação autoritária, pois ao personificar a escola como território
burocrático e instrucional, age para silenciar as diferenças, amparando-se na lei, maculando ideais hegemônicos por
meio de sanções punitivas. Woodsy desempenha um papel muito importante em
Heartbreak High
, pois representa a
ordem molar do espaço escolar, cuja função é garantir a contenção dos excessos, o que por outro lado serve de energia
para transgressões como o mapa do sexo. Vez por outra, a personagem parece ceder a determinadas negociações,
mas sempre termina mergulhada no limite de um fazer pedagógico que está encharcado em uma macropolítica
dominante que reproduz um currículo que não opera por multiplicidade, com a diferença em si, com o devir (Paraíso,
2010).
A exemplo, após o escândalo do mapa do sexo, ela decide impor uma resposta exemplar. Reúne os/as alunos/as
envolvidos/as e determina uma série de atividades punitivas e (re)educativas, apresentadas como necessárias para
corrigir condutas. Podemos citar palestras moralizantes, tarefas desgastantes e ensaios de comportamento, reduzindo
a educação sexual a um aspecto puramente biológico e fisiológico, deixando de fora toda a perspectiva afetiva. Os/as
estudantes são obrigados/as a permanecer sob constante vigilância, em uma atmosfera de constrangimento e exaustão
emocional e mental. Seu objetivo é transformar a diversidade de experiências juvenis em um corpo único e obediente,
ajustado ao ideal de disciplina, “comum no currículo-disciplinar” que destrói “aquilo que ironiza, mortifica, apaga e
aprisiona” (Paraíso, 2010, p. 598). Woodsy mobiliza a macropolítica disciplinar para alinhar os estudantes a um ideal
de normalidade. Sua pedagogia é regulatória e punitiva, marcada pela tentativa de reduzir a pluralidade juvenil a um
modelo único de aluno ideal. No entanto, a reação dos estudantes e suas resistências silenciosas mostram que, apesar
das tentativas de enquadramento, a subjetividade é sempre escorregadia, produzindo linhas de fuga que escapam ao
controle.
Entretanto, Jojo Obah, responsável por trabalhar com os/as alunos/as o encontro com a própria sexualidade,
performatiza uma docência questionadora, que se abre à possibilidade do afeto e do acolhimento. Ela atua para criar
ambientes em que o desejo seja a força-motriz de subjetivação e singularidade entre os/as educandos/as.
Diferentemente de Voss e Woodsy, sua docência atua para legitimar existências abjetas, abrindo brechas para
resistências e tensões frente ao pensamento normativo, acolhendo as diferenças e lançando mão de uma prática
pedagógica que ensina a viver uma estética que se (re)inventa por meio de devires.
Em uma de suas aulas, após tensões envolvendo bullying e julgamentos sobre sexualidade entre os estudantes, Jojo
Obah interrompe a dinâmica da turma e decide abrir espaço para uma conversa franca. Ela convida os/as alunos/as a
falarem sobre suas experiências e sentimentos, reconhecendo que a escola não é apenas lugar de conteúdos, mas
também de subjetividades em disputa. Em vez de recorrer ao discurso normativo ou à punição, adota uma postura
afetuosa e acolhedora, validando as diferentes formas de existir e incentivando os/as estudantes a se apoiarem
mutuamente. Nesse gesto, sua docência se torna não apenas transmissão de conhecimento, mas também prática de
cuidado e resistência. Há em sua prática pedagógica uma ética pautada no cuidado de si, que trabalha no/a aluno/a a
consciência de que ele/a é o/a “responsável por sua autoconstituição, sendo capaz de criar novas relações de poder e
ampliar sua liberdade” (Pellizzaro, 2015, p. 118).
No contexto das micropolíticas, sua docência abre espaço para processos de singularização, recusando a produção em
série de subjetividades normalizadas e legitimando diferenças como potências inventivas. Ao legitimar identidades
queer
e não-binárias, Jojo Obah reconhece que gênero e sexualidade são performativos e abertos à transformação, e
que a escola pode - e deve! - ser lugar de (re)inscrição desses corpos.
Ao propormos um choque comparativo entre esses modelos de docência, percebemos que as práticas educativas se
pautam em micropolíticas que não se circunscrevem como uma ação neutra, mas estão inseridas em um território de
disputas que reproduz a norma ou (re)inventa novas possibilidades de existências.
Heartbreak High
parece nos dizer
muitas coisas, pois ao analisar esse artefato no campo dos Estudos Culturais em Educação entendemos que pode nos
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proporcionar “insights interessantes sobre como ler e intervir nessa realidade hipercomplexa” (Maknamara, 2025, p.
20).
Ao cartografarmos o território de
Heartbreak High
e as vidas que o povoam com suas tantas nuances, vemos que esse
modelo de escola não está distante dos modelos que atuam fora da ficção - como podemos ver nas pesquisas de Silva
(2019), Pocahy (2016) e Carvalho (2019) - que são atravessados por múltiplas micropolíticas que intencionam libertar,
que abrem espaço para uma docência pautada em normas e silenciamentos, mas que também abrem portas para
tantas outras docências e discências que produzem linhas de fuga e ampliam as possibilidades de construção de
sujeitos diversos.
A escola como campo de (re)invenção e pluralidade
A análise de
Heartbreak High
evidenciou a potência dos artefatos culturais como textos pedagógicos, capazes de
tensionar os currículos oficiais e as micropolíticas que atravessam o cotidiano escolar. O mapa do sexo, ponto de partida
da narrativa, mostra como as juventudes se engajam em práticas de resistência que evidenciam desejos, afetos e
sexualidades invisibilizadas, configurando linhas de fuga frente à normatividade hegemônica. As trajetórias de Amerie,
Darren, Malakai, Quinni e Dusty demonstram que as subjetividades são um processo instável, performativo, atravessado
por disputas e possibilidades de (re)invenção.
No campo da docência, o contraste entre Voss, Woodsy e Jojo Obah permitiu evidenciar diferentes agenciamentos
pedagógicos, desde o disciplinamento exaustivo e normativo à abertura para o acolhimento e para o afeto. Isso nos
ensina que a escola não é apenas lugar de reprodução de normas, mas também território de embates micropolíticos
que podem produzir novas formas de ensinar e de existir.
Constatamos que as micropolíticas do desejo, tal como formuladas por Guattari e Rolnik (1996), atravessam tanto os
processos de subjetivação juvenil quanto às práticas docentes, podendo alimentar microfascismos ou, ao contrário,
favorecer processos de singularização e resistência. Nesse sentido, a narrativa seriada analisada nos ensina a pensar
a escola como espaço de multiplicidades, onde as identidades se constroem em movimento e a educação pode se
afirmar como prática estética, política e ética.
A perspectiva pós-crítica adotada neste estudo analítico, mostrou-se fundamental para problematizar a educação não
como um campo neutro, mas atravessado por disputas simbólicas e materiais que envolvem gênero, sexualidade e
relações de poder. Ao trazer para o centro da análise uma narrativa seriada midiática, reforçamos a ideia de que
currículos não se restringem ao espaço escolar, mas se estendem para outros territórios culturais, capazes de ensinar
e produzir subjetividade.
Como limites, reconhecemos que a análise se deteve a uma única obra audiovisual, mas sua profundidade permite
lançar pistas para pesquisas futuras que articulem outros textos culturais às práticas educativas, ampliando o diálogo
entre educação, cultura e subjetividade. Como possibilidade, indicamos a relevância de investir em estudos que
explorem as micropolíticas escolares em diálogo com narrativas dissidentes, favorecendo a construção de uma escola
mais plural, sensível e aberta à diferença.
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