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JULIO 2026 NOVIEMBRE 2026
/ ISSN 2408-4573 / DOSSIER TEMÁTICO
‘Imagensafetos’ que se revelam nos cotidianos da cibercultura
‘imagensafetos’ que se revelan en los cotidianos de la cibercultura
‘Imagensafetos’ That Emerge in the Everyday Life of Cyberculture
AIRES DE FARIAS, Letícia
1
, dos SANTOS, Rosemary
2
y CONCEIÇÃO GONÇALVES, Leonardo
3
Aires de Farias, L., dos Santos, R. y Conceição Gonçalves, L. (2026). ‘Imagensafetos’ que se revelam nos cotidianos da cibercultura.
RELAPAE, (24), pp. 120-132.
Resumo
O presente artigo é parte de uma pesquisa de doutorado ainda em desenvolvimento e busca as artes de fazer dos
praticantes culturais (Certeau, 1998) com suas criações de imagens que circulam os cotidianos ciberculturais. As
imagens mobilizam potências de agir, movem e afetam os modos de ‘versentirviver’ o mundo, configurando o que
denominamos ‘imagensafetos’. O artigo é apresentado em seções com a metodologia de pesquisa baseada nos Estudos
com os Cotidianos (Certeau, 1998; Andrade, Caldas e Alves, 2019) e seguindo os preceitos do método cartográfico
(Passos, Kastrup e Escóssia, 2009). Com esse movimento, forjamos a emersão de tramas em que ciência, política e
afetos (Spinoza, 2007) se entrelaçam com imagens que não apenas registram, mas inventam mundos. Nesse sentido,
a prática de pesquisa com a cartografia volta-se aos processos em devir. Para isso, cartografamos os perfis @Nunca
vi 1 cientista e @Ninja Foto, da rede social Instagram, para percebermos as relações dialógicas existentes. Cartografar
esses fluxos discursivos visuais permitiu perceber como os dois perfis tensionam temas contemporâneos e, ao mesmo
tempo, inventam modos de estar-junto em um mundo comum, plural e heterogêneo. É nesse excesso que as
‘imagensafetos’ operam, mas não como mensagens codificadas, e sim como vibrações que nos convocam a imaginar
outros mundos possíveis.
Palavras-chave: Artes de fazer, Cotidianos, Cibercultura, Cartografia, Afetos, Imagens
Resumen
El presente artículo forma parte de una investigación doctoral aún en desarrollo y busca comprender los modos de
hacer de los practicantes culturales (Certeau, 1998) a través de sus creaciones de imágenes que circulan en los
cotidianos ciberculturales. Las imágenes movilizan potencias de actuar, conmueven y afectan las maneras de
sentipensarvivir el mundo, configurando lo que denominamos imágenes-afecto. El artículo se presenta en secciones,
con una metodología de investigación basada en los Estudios de lo Cotidiano (Certeau, 1998; Andrade, Caldas y Alves,
2019), siguiendo los principios del método cartográfico (Passos, Kastrup y Escóssia, 2009). Con este movimiento,
forjamos la emergencia de tramas donde ciencia, política y afectos (Spinoza, 2007) se entrelazan con imágenes que no
solo registran, sino que también inventan mundos. En este sentido, la práctica de la investigación cartográfica se orienta
hacia procesos en devenir. Para ello, cartografiamos los perfiles @Nunca vi 1 cientista y @Ninja Foto, de la red social
Instagram, con el fin de percibir las relaciones dialógicas existentes. Cartografiar estos flujos discursivos visuales
permitió comprender mo ambos perfiles tensionan temas contemporáneos y, al mismo tiempo, inventan modos de
estar-juntos en un mundo común, plural y heterogéneo. Es en ese exceso donde operan las imágenes-afecto, no como
mensajes codificados, sino como vibraciones que nos convocan a imaginar otros mundos posibles.
Palabras Clave: Artes de hacer, cotidianos, cibercultura, cartografía, afectos, imágenes
Abstract
This article is part of an ongoing doctoral research project and explores the arts of doing of cultural practitioners (Certeau,
1998) through their creation of images that circulate within cybercultural everyday life. These images mobilize potentials
1
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil / farias.laf@gmail.com / https://orcid.org/0000-0002-9600-6436
2
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil / rose.brisaerc@gmail.com / https://orcid.org/0000-0003-0479-1703
3
Instituto Nacional de Educação de Surdos, Brasil / rjleonardocg@gmail.com / https://orcid.org/0000-0003-3617-0506
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for action, moving and affecting the ways we feel-think-live the world, shaping what we refer to as affect-images. The
article is organized into sections, using a research methodology based on Studies of Everyday Life (Certeau, 1998;
Andrade, Caldas & Alves, 2019; Oliveira, 2023), and following the principles of the cartographic method (Passos, Kastrup
& Escóssia, 2009). Through this approach, we forge the emergence of interwoven threads in which science, politics,
and affects (Spinoza, 2007) intertwine with images that not only document but also invent worlds. In this sense, the
practice of cartographic research focuses on processes in becoming. To this end, we map the Instagram profiles
@Nunca vi 1 cientista and @Ninja Foto in order to observe the existing dialogical relationships. Mapping these visual
discursive flows allowed us to understand how both profiles challenge contemporary issues while simultaneously
inventing ways of being-together in a common, plural, and heterogeneous world. It is within this excess that affect-
images operatenot as encoded messages, but as vibrations that call upon us to imagine other possible worlds.
Keywords: Arts of doing, Everyday life, Cyberculture, Cartography, Affects, Images
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Primeiras pistas: como as imagens e os afetos se relacionam
Figura 1. A destruição das imagens pelo Movimento Iconoclasta durante o séc. IX
Fonte: Perilo (2021).
Com a imagem acima (Figura 1), iniciamos este artigo, evidenciando como a fúria da destruição das imagens buscou
aniquilar as artes plásticas que, ao longo de séculos, estamparam narrativas dos acontecimentos cotidianos. Em
contraste, surgem movimentos de resistência que procuram proteger as pinturas como quem ampara um corpo ferido
prestes a tombar. Mas, se as imagens nada dissessem, por que temê-las? Se não provocassem nada, por que destruí-
las? O próprio ato de destruí-las já não revela que nos tocam, que nos afetam?
Do estrago, sustentado pela crença de que cobrir ou quebrar imagens seria o mesmo que apagar memórias, emerge
também a insistência da existência: sinal de que, mesmo sob forte ataque destrutivo, as imagens continuam a
engendrar a invenção de
‘conhecimentossignificações’
4
. Assim, no acontecimento deleuziano, a existência das imagens
habita
‘espaçostempos’
paradoxais: a imobilidade existe enquanto tudo acontece; uma duração que acolhe o fluxo dos
acontecimentos (Deleuze, 2015). É nessa permanência paradoxal que se concentra o interesse dessa pesquisa, pois
com ela se manifesta o nosso desejo, como autores, de afetar e mover corpos e pensamentos.
Nos aproximamos de Spinoza (2007), para quem conhecer e viver são dimensões inseparáveis, uma vez que cada modo
de saber é, em si, uma forma de existir. Por isso, as imagens são acontecimentos que nos afetam e nos movimentam,
elas não permanecem do lado de fora da vida como meros registros. Uma imagem disparada numa rede social, e que
circula entre seus usuários, anuncia maneiras de compor o
‘sentirviver
’; não apenas mostram, mas instauram
experiências em que se aprende, se ensina e, sobretudo, se inventam cotidianos.
Dessa forma, buscamos apresentar as “artes de fazer” (Certeau, 1998) de praticantes culturais com a criação de
imagens que circulam nesses cotidianos ciberculturais. Imagens que mobilizam potências de agir, que movem, que
afetam os outros e nossos modos de
‘versentirviver’
no mundo, configurando o que denominamos
‘imagensafetos’
.
O texto é parte de uma pesquisa de doutoramento em andamento no Programa de Pós-Graduação em Educação, na
Universidade do Estado do Rio de janeiro (ProPEd/Uerj), voltada a investigar como as
‘imagensafetos
mobilizam
4
Nós, pesquisadores dos Estudos com os Cotidianos, adotamos o uso dos termos ‘conhecimentossignificações’, entre outros assim grafados,
conforme preconiza Alves (2019), pois entendemos que “[...] as dicotomias herdadas das ciências na Modernidade têm significado limites”
(p.15) para as nossas pesquisas. Assim, para marcar a superação de conceitos fragmentados e hierarquizados, passamos a grafar desse
modo os termos dicotômicos: juntos, em itálico e entre aspas simples, e doravante será como aparecerão nesse artigo.
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transformações nos
praticantespensantes’
, resgatam memórias e afetos, que fazem circular diferentes
conhecimentossignificações
no campo de pesquisa, o Centro de Tecnologia educacional (CTE/Uerj). Para este artigo,
inspirados pela Pesquisas com os Cotidianos (Certeau, 1998; Andrade, Caldas e Alves, 2019) e pelas pistas do método
cartográfico (Passos, Kastrup e Escóssia, 2009), nosso objetivo é investigar como as imagens, em suas circulações
ordinárias, constituem micropolíticas nos processos educativos atravessados pela cibercultura.
Assim, dividimos este artigo em três seções. Na seção, “Seguindo os caminhos e descaminhos: uma pesquisa com os
cotidianos”, traremos nossa metodologia de pesquisa, em um diálogo com nossos intercessores para traçar o conceito
das
imagensafetos
’. Sempre em uma dialogicidade, em uma troca, uma confluência (A. Santos, 2023) porque no fim
“todo mundo é um e tudo, tudo, tudo, tudo que nóis tem é nóis; tudo, tudo, tudo que nós tem é”, como diz a letra da
música Principia de Emicida (2019).
Cartografar sentidos de imagens é uma procura por aquilo que está explícito ou não, mas que está contido nas
entrelinhas das criações ciberculturais. Por isso, na seção seguinte, “O visível e o invisível: as
‘imagensafetos
emergem”, nos aprofundamos na relação entre os afetos, as memórias e as imagens, com múltiplas linguagens para
anunciar nossas pistas cartografadas para a construção do conceito.
Por fim, na última seção, Por uma reinvenção de mundos”, deixamos registrado nossos sonhos e desejos para
continuidade da pesquisa e das construções iniciadas nessa escrita a três mãos. Com movimentos de resistência em
prol da preservação das memórias e afetos forjados coletivamente pelas
‘imagensafetos’,
vamos revelar como a
pesquisa caminhará futuramente, nos passos desconhecidos do campo de pesquisa, com as imprevisibilidades e
incertezas.
Seguindo os caminhos e descaminhos: uma pesquisa com os cotidianos
Figura 2. Uma imagem dos cotidianos ciberculturais
Fonte: Vaz (2025).
Partindo da Figura 1, sabemos que uma imagem se torna um registro de resistência. Em suas camadas e planos temos
elementos que contam uma história, registram memórias e se tornam fragmentos de um vivido. Com essa certeza nos
questionamos: afinal, o que é uma imagem no contemporâneo digital? Para responder essa pergunta realizamos um
print (Figura 2) de uma publicação em uma página do Instagram chamada @poetasv, do poeta e produtor cultural Sérgio
Vaz.
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A imagem em questão traz elementos bem distintos em comparação a nossa Figura 1. O registro traz uma poesia, com
uma legenda extensa que foi criada por Sérgio Vaz, e ainda com um espaço voltado para a interação de outros
praticantes culturais, com reações e comentários. O Instagram é uma rede social criada para o compartilhamento de
imagens, que permite incluir no processo de compartilhamento músicas, figurinhas, textos e outras fotos, que podem
ser compartilhadas no feed do perfil, nos
Stories
, ou nos
reels.
O local em que o praticante cultural escolhe realizar sua
publicação traz especificidades únicas. No feed, a imagem permanece como parte da identidade do perfil, como
capítulos de uma história que escolhemos contar. Nos stories uma instantaneidade, pois a publicação permanece
visível por apenas 24 horas. E no
reels
, o incentivo de compartilhamento universal para popularizar para mais
pessoas sua publicação pela ampliação da sua divulgação.
Uma imagem no contemporâneo possui agora outros elementos, outras formas de narrar o vivido e apresenta no
invisível um desejo de como e qual o objetivo com essa narrativa vai habitar o digital. Sérgio escolhe a poesia como um
elemento para contar sua história, com leveza ele nos provoca sobre a poesia, tornando visível a invisibilidade do gênero
literário para alguns. Uma imagem contemporânea pode explorar múltiplas linguagens, sons, sentidos e sensações, em
suas presenças e ausências, no visível e invisível. É parte de um plano de imanência (Deleuze e Guattari, 2007), com o
equilíbrio e desequilíbrio de forças e energias, que traz em seus signos as histórias anunciadas e silenciadas.
A Figura 2, é um convite para entabular nossas conversas, fazemos do próprio ato de conversar com imagens o nosso
método. Dessa forma, situamos os territórios de invenção que são múltiplos, movediços e atravessados por diferentes
forças nas conversas como prática de pesquisa. Conversar, aqui, não é simples troca entre pergunta e resposta, mas
ato de abertura ao imprevisto, disposição para inventar sentidos no próprio acontecimento. É deixar-se afetar. Nesse
movimento, permitimos ser surpreendidos pelo que emerge e, assim, inscrevemos nossa investigação no campo dos
Estudos com os Cotidianos.
Contudo, mais do que considerar os cotidianos como filiação epistemológica, trata-se de reconhecê-los como matéria
viva, ou seja, dimensão indissociável da investigação. Por isso, acompanhamos Süssekind (2012) na compreensão de
que são com as conversas que emergem no campo investigativo, que pesquisador e pesquisado se afetam mutuamente,
produzindo juntos conhecimentos tecidos pelas experiências forjadas nesses próprios
‘espaçostempos’
. Com as
conversas emergimos do ordinário o extraordinário como nos inspira Sérgio Vaz (Figura 2).
Enquanto assumimos as conversas como prática de pesquisa, a Cartografia se torna nosso procedimento metodológico
(Passos; Kastrup; Escóssia, 2009). Com esse movimento, forjamos a emersão de tramas em que ciência, política e
afetos se entrelaçam com imagens que não apenas registram, mas inventam mundos. Nesse sentido, a prática de
pesquisa com a cartografia volta-se aos processos em devir. Assim sendo, de um lado, nos aproximamos daquilo que
se manifestava nas práticas ordinárias, na circulação de imagens que atravessavam os cotidianos sem pedir licença de
outro, nos permitimos compreender como tais imagens produzem sentidos capazes de movimentar modos desviantes
de
‘versentirviver’
as narrativas; criar
‘imagensafetos’
. Essa perspectiva se potencializa quando pensamos as conversas
na cibercultura e os usos de sons, vídeos, memes, stories, dentre outros, que são, por si, nossas conversas cotidianas.
Com isso, mergulhamos com todos os sentidos (Andrade; Caldas; Alves, 2019) em páginas na Internet de acesso público
e irrestrito, e usamos a ambiência da rede social Instagram, cuja popularidade cresceu de forma vertiginosa nos últimos
anos. De acordo com Sampaio (2024), somente no último trimestre do ano de 2023, foram 13 milhões de novos usuários
mensais ocupando o Instagram, totalizando 1,47 bilhão de pessoas habitando essa interface digital. As publicações no
Instagram reúnem temas variados que atravessam as relações sociotécnicas e expõem quem somos, quem desejamos
ser e o que escolhemos contar. Um único perfil, com uma simples postagem, pode materializar uma imagem
compartilhada entre milhares de usuários, alimentar os algoritmos que produzem dados e, ao mesmo tempo, narrar
histórias que ditam ou interditam afetos.
Para compreender os usos das imagens, selecionamos dois perfis específicos: @nuncavi1cientista e @ninja.foto.
Diferentes e complementares, ambos os perfis se tornaram intercessores (Deleuze; Guattari, 1992) com que
conversaremos e pensamos acerca das
‘imagensafetos’
nos cotidianos da cibercultura. Portanto, ao conversar com as
publicações de @nuncavi1cientista e @ninja.foto, o que nos interessa não é apenas o conteúdo em si, mas o processo
de circulação de
‘conhecimentossignificações’
em que se enredam narrativas dos cotidianos. Cartografar esses fluxos
discursivos visuais permitiu perceber como os dois perfis tensionam temas contemporâneos e, ao mesmo tempo,
inventam modos de estar-junto em um mundo comum, plural e heterogêneo.
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As
‘imagensafetos’
que se revelam
Figura 3. Livro Mutus Liber
Fonte: Libriproibiti (s.d.)
O Mutus Liber (Figura 3), publicado no ano de 1677, é uma espécie de compêndio das práticas de alquimia. Ao longo
de suas páginas, em vez de extensas descrições, encontramos apenas ilustrações de fontes que jorram, aves que
cruzam o céu, estrelas que cintilam, personagens enigmáticos e objetos misteriosos. Tudo é imagem! Diferente dos
tratados de sua época, essa obra aposta na leitura provocada pela experiência visual com as imagens. Chamado de
Livro mudo, a voz do livro emerge da sinestesia provocada com o silêncio das imagens (Palamidesi, 1995).
Com Beiguelman (2021), compreendemos que a imagem se ressignifica no contemporâneo, pois uma imagem se
articula com narrativas (visíveis ou não), com discursos intrínsecos e histórias silenciadas, ocultas ou ditas nas
entrelinhas. Assim como o Mutus Liber, uma imagem no contemporâneo emerge e provocar o sentir, mas agora em
uma interatividade, com uma conversa contínua, constante e que não se finda. Uma imagem pode gerar outras, que
podem articular-se com outros elementos, com outras linguagens e se tornam expressões que carregam em si
lembranças, fragmentos de histórias, com sons, sentidos e saberes de um virtual (Levy, 1999) forjados nos cotidianos
ciberculturais e compartilhado pelas interfaces do digital.
Percebemos assim a necessidade de uma pesquisa sobre as imagens criadas na cibercultura, que ficções elas
anunciam e o que nos ensinam. Afirmamos isso pois pensamos como Bentes (2018) que uma busca por formação
nos espaços das redes sociais quando o conhecimento não é obtido pela educação formal, aquele derivado das escolas,
universidades e instituições de ensino. E que nesses casos os perfis em redes sociais se tornam “formadores” e
“fazedores de cultura” (p.159), tanto a figura de um praticante em um perfil único como aqueles perfis que representam
mais de uma pessoa, que nesses casos se tornam uma rede.
Em nosso artigo, buscamos cartografar alguns perfis que materializam em seus compartilhamentos esse desejo, com
suas
‘imagensafetos’
, de relacionar a circularidade dos
‘conhecimentossignificações’
com seus afetos e ainda com as
imagens no/do contemporâneo. Elas são a materialização de uma intencionalidade coletiva de uma ciência que não se
dissocia dos cotidianos, presente em conversas, em diálogos inventivos sobre um mundo.
Podemos pensar o acesso ao Instagram como sentar-se em uma mesa de bar sempre lotada. Diante dessas
circunstâncias, as narrativas se cruzam, histórias se sobrepõem e piadas correm soltas. Uns chegam de passagem,
deixam uma breve opinião e logo se vão; outros retornam diariamente, ocupando seu lugar cativo e puxando conversas
(Filé, 2006). Cada postagem é como um copo repousado na mesa. Logo tudo se esvazia, são esquecidos; outros
permanecem e voltam a ser lembrados no dia seguinte. Com esse movimento, por vezes caótico, mas sempre fértil,
ciência, arte, política, em suma, os cotidianos se entrelaçam efemeramente e insistentes.
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Enquanto isso, no entrelugar do humor e seriedade se inscreve o perfil @nuncavi1cientista (Figura 4), criado por Laura
Marise (farmacêutica) e Ana Bonassa (bióloga), que definem sua proposta como levar ciência com credibilidade e bom
humor. Com quase 800 mil usuários no momento da escrita dessa pesquisa, a página na
web
movimenta uma
quantidade expressiva de praticantes. Os memes,
reels
irônicos, dentre outras expressões, produzem ciência
‘dentrofora’
da universidade. O perfil inventa modos de tensionar narrativas, denunciar desinformações e disputas
políticas e, nesse sentido, o humor funciona como modo de resistência.
Figura 4. Print do perfil do Instagram Nunca vi 1 cientista
Fonte: Marise e Bonassa (2025)
Em decorrência das criações publicadas no perfil, contraditoriamente a página foi processada judicialmente após
denunciar a desinformação que associava a diabetes à presença de vermes (Figura 5). A decisão, porém, foi revertida
pelo Supremo Tribunal Federal, evidenciando que a circulação de imagens mobiliza instituições jurídicas, convoca a
opinião pública, altera trajetórias pessoais de vida e provoca tensionamento social. É nesse ponto que chances de
percebermos os movimentos invisíveis (Certeau, 1998) criados com os usos das imagens na cibercultura.
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Figura 5. Cientistas são condenadas por desmentirem postagem
Fonte: CNN Novo Dia (2025).
Ao disparar matérias sobre os temas da política, das ciências, dentre outros, em conversa aberta na rede, as
proprietárias do perfil performam um movimento necessário às pesquisas com os cotidianos, segundo o qual chamamos
de A circulação de
‘conhecimentossignificações’
como necessidade (Andrade, Caldas e Alves, 2019). Esse movimento
nos leva a articular questões relacionadas ao
‘fazerpensar’
nas pesquisas com os cotidianos.
Assim, o perfil @Nunca vi 1 cientista, de um lado, populariza temas técnicos-científicos; de outro, constitui-se como
‘espaçostempos’
de resistência às crises epistêmicas contemporâneas, ao expor e denunciar a desinformação.
Contudo, é preciso reconhecer que tais práticas não se dão em campo neutro. A cibercultura é atravessada por
processos de plataformização e dataficação (Lemos, 2021), alimentada por um capitalismo de dados e por um governo
tecnopolítico (Silveira, 2017), em que algoritmos modulam a visibilidade do que circula e definem quase exclusivamente
as regras do jogo. Além disso, como apontam Faustino e Lippold (2023), vivemos sob a marca de um colonialismo
digital, em que práticas globais de vigilância e exploração atravessam o uso cotidiano das redes.
Mas como vimos, é justamente do território tensionado que emerge a possibilidade de subversão. O humor e a crítica
circulam como imagens e se projetam para furar as lógicas hegemônicas, movimentar narrativas impostas e inventar
outros modos de existir com o digital em rede. No caso do @Nunca vi 1 cientista, cada imagem não apenas informa,
mas instaura uma ambiência formativa (R. Santos, 2015) em que rir, aprender, ensinar, denunciar e anunciar se
entrelaçam como práticas ordinárias dos cotidianos.
Se o perfil @Nunca vi 1 cientista usa imagens como linguagem do humor para inventar narrativas de ciência e
desinformação, o perfil @ninja.foto (Figura 6) se inspira na potência da imagem fotográfica como movimento de
denúncia e visibilidade. Em suas postagens, as cenas dos cotidianos, as desigualdades sociais, os fragmentos da vida
comum que, ao serem capturados e expostos, ganham densidade política. Cada imagem se converte em um chamado
ao olhar, como se dissesse: “veja o que estava diante de você e ainda assim permanecia invisível”.
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Figura 6. Print do perfil Ninja Foto no Instagram
Fonte: Ninja foto (2025).
Ao investigar o perfil @ninja.foto, cartografamos como as imagens são usadas na prática política e pedagógica. Notamos
que não neutralidade no ato de enquadrar a imagem: cada escolha de ângulo, de cena ou de momento produz
conhecimentossignificações’
que formam e informam. Assim como no caso do @Nunca vi 1 cientista, também aqui
vemos um movimento rizoma (Deleuze e Guattari, 2007), em que cada imagem se conecta com vozes, outras narrativas,
alargando a rede viva de
‘aprendizagensensinos’.
Ao cartografarmos o perfil @ninja.foto percebemos como as imagens operam como dispositivos políticos e pedagógicos,
instaurando modos de ver e de saber que atravessam os cotidianos. Ao observarmos as escolhas estéticas, as narrativas
o enquadramento, o tempo da captura, os corpos e espaços visibilizados percebemos que as imagens não apenas
representam, mas constituem realidades. Tal como no perfil @Nunca vi 1 cientista, onde as imagens também se
desdobram em rizomas, conectando-se a múltiplas vozes, afetos e histórias. Nesse emaranhado, a rede social não é
mero suporte, mas potência de criação de mundos, convocando o olhar a participar de uma pedagogia do sensível,
onde o saber se dá na vibração entre o que se vê e o que se sente.
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Figura 7. Publicação em colaboração dos perfis @oronaldcruz, @ayoluwaomi, @ ayanaamorin_ e @ninja.foto,
disponível no feed do perfil Ninja foto
Fonte: Cruz (2025).
Inspirados em A. Santos (2023), notamos que o perfil @ninja.foto compartilha afetos ao se relacionar com outras contas
e com seus praticantes. Nesse processo, o perfil recebe uma recíproca: “o afeto vai e vem” e, por fim, “o
compartilhamento é uma coisa que rende” (p. 36). Quando outros usuários comentam, compartilham e interagem com
essas postagens, percebemos de que modo o perfil se torna coletivo; rizoma, expandindo-se em linhas imprevistas e
multiplicando conexões.
Esse movimento em que o afeto não se encerra em quem o emite, mas retorna ampliado, forja os
territórios de invenção
.
Assim, quando o perfil @ninja.foto compartilha e recebe de volta, não está apenas somando interações, mas compondo
um circuito em que cada comentário ou repostagem funciona como um novo desvio, uma dobra que reconfigura os
sentidos possíveis. O perfil se torna, assim, expressão que escapa à planificação, que se alia em pequenas insurgências
que movimentam o comum.
Sobretudo, lembramos que, em Spinoza (2007), o afeto não representa, mas ele expressa. O afeto é intensidade,
variação de potência que se conecta a outros corpos e signos em um campo múltiplo, descentralizado, sem hierarquia.
Nesse sentido, as imagens, tal como mobilizadas pelo perfil @ninja.foto, são manifestações de existência e, sobretudo,
garantia do direito de permanência dos praticantes das redes sociais. As
‘imagensafetos’
não respondem a uma
circularidade previsível nem tampouco a uma intencionalidade explícita.
Pensar o afeto como intensidade é também recusar a ideia de que a potência das imagens poderia ser medida por
números de curtidas. Nas cartografias que realizamos, o que emerge é a vibração dos
‘espaçostempos’
do agora: uma
fotografia que, ao mesmo tempo em que expõe uma luta, arrasta consigo memórias e projeta futuros. É por isso que os
usos das imagens em perfis como o @ninja.foto não cabem em categorias fechadas, pois são antes exercícios de
resistência, variações que se inscrevem em uma política do sensível, tecendo linhas de fuga que reconfiguram tanto
quem publica quanto quem se deixa atravessar pelo que vê.
Deixamo-nos, nesse sentido, levar pelas conversas como quem inventa uma experiência estética a partir de cada
movimento das imagens; a tarefa não é capturar um significado último, mas entrever as frestas por onde o outro se
narra, percebendo que no dito sempre pulsa o não dito. É com essa escuta sensível ao inacabado que se abre caminho
para as invenções, para narrativas que resistem justamente porque não se deixam fixar. Ao acompanhar essas frestas,
percebemos que o silêncio não é ausência, mas excesso. É nesse excesso que as
‘imagensafetos’
operam, mas não
como mensagens codificadas, e sim como vibrações que nos convocam a imaginar outros mundos possíveis. Esse
modo de escuta, próximo das conversas que se tecem nos cotidianos, desloca a análise de um campo de decifração
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para um campo de invenção. O que importa não é descobrir o significado certo da imagem, mas transitar junto com
ela, deixar-se afetar e, nesse processo, aprender com o que escapa, com o que se insinua no silêncio entre uma
publicação e outra.
Por uma reinvenção de mundos
Figura 8. Publicação em colaboração com os perfis @poderespretos e @ninja.foto, disponível no feed do perfil Ninja
Foto
Fonte: Olhar da Medusa (2025).
As
‘imagensafetos’
nos provocam a imaginar mundos possíveis. Na relação entre as imagens, seus signos, seus
sentidos e suas expressões sobre o vivido elas pulsam afetos que tomam caminhos e descaminhos, mas que
principalmente nos fazem pensar e repensar o mundo. Com A. Santos (2023) desejamos um mundo de confluências,
ampliando esses afetos, e ainda de transfluências, por um mundo de sonhos de janelas de “nóis” em todos os
‘espaçostempos’
.
Nesse artigo, alcançamos nosso objetivo de investigar como as imagens, em suas circulações ordinárias, constituem
micropolíticas nos processos educativos atravessados pela cibercultura. Com os Estudos dos Cotidianos e a Cartografia
como todo mapeamos perfis na rede social Instagram, que criam
‘imagensafetos’
em uma dialogicidade entre
política, ciências, cotidianos e afetos. Escolhemos dialogar com a arte, pois ela se torna uma manifestação de
resistência, mantendo o diálogo aberto entre o passado, o presente e o futuro desejado. Criamos com as imagens
ambiências possíveis, com a circularidade dos ‘
conhecimentossignificações
’, em uma conversa aberta com discursos,
memórias e histórias, em seus dispositivos formativos. No entanto, mesmo com tantas potências precisamos considerar
que a sua leitura é subjetiva, é sempre um conceito aberto.
Para nós aqui, nessa escrita coletiva, a
‘imagemafeto
é o agenciamento de afetos, que nos faz entrever as experiências,
desconstruir, desterritorializar, reconstruir e reinventar novas formas de
versentir’
o mundo. Mas para cada um que
compõe esse rizoma que se expande será uma mixagem, uma atualização, uma coautoria desses desejos.
Assim, reafirmamos que essas imagens não apenas circulam, mas vibram nos cotidianos ciberculturais como forças
micropolíticas que educam, provocam e transformam. Ao cartografar essas expressões visuais, compreendemos que
cada imagem é um gesto de resistência e invenção, capaz de instaurar ambiências formativas e afetivas que desafiam
os modos hegemônicos de conhecer e ensinar.
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/ pp 120-132 / Año 13 Nº24 /
JULIO 2026 NOVIEMBRE 2026
/ ISSN 2408-4573 / DOSSIER TEMÁTICO
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Fecha de recepción: 30-9-2025
Fecha de aceptación: 15-12-2025